domingo, 7 de abril de 2013

Manhã Agridoce



“...por isso eu me entrego a um imediatismo cego, pronta pro mundo acabar!
O mundo acaba hoje e eu estarei dançando...”

É domingo de manhã! Amo os domingos de manhã...
Talvez por causa das corridas do Ayrton Senna que acompanhei com meu pai e depois sozinho na infância. A cada “tema da vitória” tocado e bandeirinha do Brasil saída de dentro do carro, eu sentia que meu pai estava ali comemorando comigo... A felicidade não era pelo Brasil! Lembro de torcer contra o Brasil num jogo de futebol que meu pai assistia quando eu contava uns cinco anos e ele, sem agressividade dizia: “você está igual ao seu padrinho Dauri, torcendo contra o Brasil... Agora só falta torcer pra Argentina...”! Até hoje é assim... Vou jogar bola daqui a pouco com minha camisa da Argentina!
Hoje em dia, aos domingos de manhã tenho o tradicional futebol semanal!
Não é só jogar bola! Existe todo um ritual! É preciso ligar a mente, o organismo, a vontade... Por conselho do Thiago Marangueli, como chocolate uma hora antes de entrar em quadra! Prefiro comer a barra que chamo de "lakamaro", que é uma mistura de meio amargo com branco... O mais amargo com o mais doce dos chocolates que mais gosto.
...agridoce...
É o título do CD que ouço agora... Ganhei ontem de presente de um amigo... Meu quase irmão Alexandre Casonatto que só foi uma vez no futebol e se contundiu no aquecimento, sempre presente na minha vida como parceiro na música, no rock, nas angustias e alegrias, agora participa de um dos momentos mais íntimos da minha semana! Ah o domingo de manhã...


Fim do disco...

Mas nada acaba no final... Este disco, lançado em novembro de 2011, foi a minha trilha sonora de 2012! O meu destino poderia ter me tornado um homem mal? Sou um homem de bem? Prefiro ignorar os conceitos que são fruto controverso de opiniões e me firmar além do bem e do mal, para além do amargo e do doce... Sou humano, sou chimarrão e chocolate! Sou agridoce...
Ontem o Xandy me deu um ponto de vista fisiológico dos benefícios da dor e eu dei minha visão trágica! Um olhar otimista consegue tirar vantagem da dor e do prazer simultaneamente. Tristeza e alegria, calor e frio, amargo e doce... Estas coisas não são privilégios de ninguém! A diferença está no olhar, na maneira de encarar tudo isso. São opostos que, no fundo, não se opõe, mas se juntam em uma mesma substância! Seres e estados de espírito completos em seus diferentes estágios!

“Uma gota de orvalho? Perfume e Vapor de eternidade? Não ouvis? Não sentis o aroma? Meu mundo se tornou perfeito nesse instante, meia-noite é também meio-dia, —
A dor também é um prazer, a maldição também é uma bênção, a noite também é um sol — ide embora, ou aprendereis: um sábio também é um tolo.
Dissestes alguma vez Sim a um só prazer? Oh, meus amigos, então dissestes também Sim a todo sofrimento. Todas as coisas são encadeadas, emaranhadas, enamoradas, —
— e, se um dia quisestes duas vezes o que houve uma vez, se algum dia dissestes ‘tu me agradas, felicidade! Vem, instante!', então quisestes que tudo voltasse!
— Tudo de novo, tudo eternamente, tudo encadeado, emaranhado, enamorado, oh, assim amais vós o mundo[...] (Assim Falou Zaratustra - NIETZSCHE, 2011, pg. 307)”

p.s. Valeu Xandão! Presentaço!
Em breve falarei de cicatriz, nossas bandas preferidas, nossas intermináveis conversas, de você como meu cabeleireiro e eu como invasor de sua noite de núpcias em nossos casamentos... Por enquanto - Tchau Radar!

terça-feira, 2 de abril de 2013

Paixão e Linguagem das Línguas


Passei toda a santa semana pensando em escrever sobre os dias especiais que vieram em sequência... Perguntado sobre minha paixão, foi inevitável não lembrar da paixão de Jesus e as inúmeras vezes que me pegaram pra Cristo:


Fazendo uma leitura trágica deste evento da história de Cristo, o prazer de ensinar, conviver e por fim “salvar” os homens, passa por um caminho de intensa dor e sofrimento. A morte acaba vencendo... Mas é superada pela vida que, no fim, se sobrepõe à morte na ressurreição!
Quando ouço canções da música brasileira que tratam de amor, de paixão, de desejo (sobretudo dos pretensos universitários do sertão), me deparo com uma pobreza gigantesca no uso de palavras outrora responsáveis por dar signo aos mais nobres anseios e sentimentos de indivíduos privilegiados. Os usos comuns acabam desgastando e limitando palavras ditas de uma maneira vaga e idiota. Caetano Veloso pode dizer o que eu gostaria de dizer a cada um destes pseudopoetas que são idolatrados e citados incansavelmente pela massa estúpida:


Pensando tragicamente a paixão, e, sobretudo, o amor, que sobrevive como produto da mesma, acredito que poucos privilegiados tem acesso a tais sentimentos em suas características mais completas. Sentimentos que passam por intensos estágios de dor e prazer. Sensações que não se anulam, mas se completam!
Nem o aniversário de meus dois filhos (2 e 7 anos) no domingo da ressurreição, conseguiu me tirar do estágio de dor e sofrimento aclimatados na sexta-feira! Há tempos me encontro com o peito em ferida aberta esperando a cicatrização que custa a acontecer...
Chego aqui, nesta altura do texto frustrado... Ando tendo medo das palavras que uso... Queria escrever as melhores palavras da melhor maneira, no melhor dos meus poemas... Hoje não!
Ficarei mesmo nesta prosa conceitual... 
Hoje meu pai completa 51 anos! Entre o aniversário dos meus filhos e o do meu pai, tem o dia da mentira! Mas isso foi ontem! Não é mentira quando digo hoje, dia 02/04, que eu viveria os 10 últimos anos eternamente! Se eu tivesse esta opção de ficar imortalizado numa incessante repetição dos últimos anos, eu diria que sim! Mesmo sabendo de toda a dor e sofrimento que me vieram nos últimos dois anos, os outros oito compensam com inúmeros momentos de intensa alegria e prazer! Claro que vivi algumas dores nos outros 8 anos, mas aprendi muito com elas! Desta que ainda carrego, ainda não extraí benefício! Quem sabe em breve...
Muitos sentimentos, sonhos e empolgações não duraram... Sucumbiram diante das tragédias cotidianas.

“Um mundo estranho
queimava sonhos ao nosso redor.
Não podia durar pra sempre!
Não podia ser diferente
Não poderia ter sido melhor...”
(Até mais - Humberto Gessinger)

Mas, como eu costumava dizer, todo fim encerra em si um novo início... Ainda não sei qual é! Estou em plana fase de transição! Mas já soltei meu último [ou primeiro] grito! José de Arimateia logo vai me tirar da cruz e fico na espreita pra saber com qual sol nascente irei ressuscitar pra mim mesmo e pros meus sonhos!
Embora eu tenha falado só de mim, devo admitir que não vivo sozinho toda a minha solidão! Raras pessoas aceitariam viver só com um cara sozinho! Raras pessoas são capazes de admitir que a vida é uma experiência individual! Ninguém completa ninguém! Somos seres completos, sozinhos por essência! Mas às vezes é bom sair em busca de companhia! Gente  disposta a partilhar em gestos e palavras a tentativa de traduzir seus sentimentos! 
Mas só existe uma linguagem capaz de traduzir de maneira direta sentimentos nobres: A linguagem da própria língua! Ela interrompe as palavras em busca de outra língua! É no encontro de línguas em um beijo que os mais nobres sentimentos podem ser traduzidos! Mas este encontro de línguas, pra conseguir traduzir sentimentos nobres, deve estar fundamentado em uma grande experiência de amizade e confiança! Foi assim...

Ela estava sentada em um local pouco confortável! O clima fresquinho era propicio a um contato maior entre nossos corpos! Assim, pra diminuir o desconforto do local ela deitou no meu colo... Os olhos fechados tentando simular certa indiferença e a boca entreaberta aumentavam o encanto do momento! O sonho de outrora estava prestes a se materializar. A mesma garota que invadiu meu sono e me beijou numa cena que não me saia mais da memória, agora estava ali! Desta vez acho que eu não estava dormindo! Mas ela de olhos fechados esperava que meus lábios finalmente tocassem os dela! O coração acelerado ameaçava escapar pela boca... Precisava ser rápido, afinal de contas, ela, de olhos fechados, poderia acabar dormindo de verdade se eu relutasse em iniciar o diálogo de línguas que nós dois desejávamos...

Acho que eu já descrevi esta cena outra vez aqui o blog... Nem vou conferir... Acho até que interrompi a narrativa no mesmo momento... Pode ser por incapacidade de narrar o beijo, ou pode ser porque não consigo mesmo traduzir em palavras o tamanho daquela  sensação de alegria... Não esqueço este beijo! Parece que ele sempre retorna, de uma forma ou de outra... Por isso não me incomodo se estou repetindo a narrativa... 
...eterno retorno... 
Parece que estou sempre a espera do primeiro beijo...


sábado, 9 de março de 2013

Religião, Futebol e Política < Poesia


O papa renunciou
Um estádio protestou
O Chávez descansou

Mas ele foi encontrado morto em seu apartamento
E assim se encerrou meu estudo naquele momento

Maluco Beleza, um louco sem sua razão
Licença poética à vida pra inquietação

Nem futebol, ou política, ou religião
Rock, poesia, legado na voz de um chorão

“Eu tô seguindo o meu caminho, não peço que me sigam, cada um faz o que pode, os homens passam e as músicas ficam” (Raul Seixas)
“Disso os loucos sabem! Só os loucos sabem...” (Chorão)

sábado, 26 de janeiro de 2013

Sim!


A lua cheia entre as árvores surgiu em frente a minha janela hoje e logo me lembrei da questão do eterno retorno...
Será que estou vivendo a vida de uma maneira que deseje viver tudo eternamente da mesma maneira?
Admito que nem sempre... Mas é esta minha busca e anseio - Destruir, com o riso, o espírito de gravidade...
Mas refazendo a pergunta, acho que, pelo menos hoje, posso ser mais definitivo:
Valeria a pena viver a vida como se tudo fosse se repetir eternamente sem qualquer alteração?
Sim!
“Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma seqüência e ordem — e assim também essa aranha e este luar entre as árvores, e também este instante e eu mesmo..." (Nietzsche - A Gaia Ciência, 341)

O luar entre as árvores visto da minha janela agora a pouco, 
mas que deverá eternamente se repetir, do mesmo modo...

Já que este é meu primeiro post do ano no trágica mente falando, desejo (antes que janeiro se ponha no horizonte) um excelente ano novo a todos os que passeiam agora (e eternamente) seus olhos por estas minhas palavras!!!


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Amor à Sofia

Qual foi a cor herdada pelo céu depois da tempestade? Baunilha... Que cor é essa?
Aquele céu cor de baunilha não é o mesmo que se vê do décimo terceiro andar? 
O décimo terceiro andar não é o mesmo de onde se alimentam os cabos de energia da Matrix?
Matrix não mostra alguém que quer descer até o fundo no buraco do coelho pra conhecer o mundo real?
O buraco do coelho não é o mesmo por onde desceu Alice?
Alice não era uma garotinha curiosa como Sofia?
Sofia não queria subir até a ponta dos finos pelos do coelho para olhar nos olhos de um chapeleiro maluco que a tirava da cartola?
Esse maluco não era o náufrago solitário que deu vida a cartas de baralho que habitavam sua cabeça?
Entre estas cartas de baralho, não havia um curinga que anunciava a todas as outras cartas que deveria haver um criador?
Este criador não teria tido a sua morte [vinda pelas mãos de suas próprias criaturas] anunciada pelo curinga?
A morte de deus não foi anunciada pelo martelo de uma trágica filosofia?
Filosofia não vem do grego philos (φίλος) e sophia (σοφία)?
Filo a Sabedoria, Amor à Sofia...

  
Onde está Sofia?
Talvez esteja ouvindo um rock nos campos de morango, onde nada é real...
Vale a pena amar Sofia? Pergunta difícil...
Troco: Tem como não amar Sofia?
Acho que não! Mesmo se percebesse que ela é irreal... Que está morta [ainda que viva em mim]... 
Meu erro, às vezes, é esquecer que vale muito mais o amor que a fria realidade da sabedoria... 

"Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal..." (Nietzsche)

No país das maravilhas tem um gato! Tem também um prédio de 13 andares em meio aos campos de morango. De lá se pode observar o povoado. De lá se pode pular, livrando-se do medo da Matrix e das palavras do curinga...

Saia da Matrix... 

Abra os olhos!

De curinga pra curinga.

domingo, 30 de dezembro de 2012

Início do Fim de 2012


Inicia-se agora o último dia do ano mais difícil da minha estrada.
A pergunta que fica no início do fim de 2012: "Meus bons amigos, onde estão?"
A falta de alguns de tão perto, e a surpresa da presença de uns tão distantes é incapaz de alterar a importância de qualquer um deles.
Afinal, cada um desses meus bons amigos nem tem a medida do "bem que fez pra mim assim, e assim me fez feliz, assim..."
Cada um, a sua maneira, acaba ficando...

"Existe um lugar onde ninguém pode tirar você de mim. Este lugar chama-se Pensamento...e nele, você me pertence!!" (Charles Chaplin)

Pertencimento sem posse...
Pertencemos um ao outro como a rosa ao princepezinho.
Se o amor é infinito, então ele nunca se basta e é incompleto.
Mas a distancia traz consigo o medo de que esse amor se feche, tornando-se assim imperfeito... Que seja!
Pouco importa a perfeição...
Amizades assim são completas (e porque não dizer perfeitas?) em cada segundo vivido
Pouco importa se aquele ultimo “tchau”, despretensioso, torne-se, de repente e definitivamente um adeus... "Nada vai conseguir mudar o que ficou..." (Legião Urbana)

Sem falsas promessas pra 2013, quero só desejar alegria a meus amigos! Mesmo que seja em meio à dor... Mesmo que se expulse todo o amor: "Tornar o amor real é expulsá-lo de você para que ele possa ser de alguém..." (Nando Reis)

Tragicamente falando, desejo com muito amor e carinho que cada um destes meus bons amigos, malditos ou inocentes, tenha força pra perseguir e alcançar os objetivos que trazem alegria ao seu coração... Mesmo que pra isso, o amor infinito que nos une torne-se completo e imperfeito...

Amor Fati a todos... Sem medo...

...ou não...


sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Sonho – Fuga e Estrada

Na madrugada do dia em que completaria 30 anos, sonhei que eu ia embora de casa.
Uma troca de roupa, um pouco de dinheiro, lanche... Tudo dentro de sacolas plásticas antes de entrar na mochila. As sacolinhas impediriam a destruição do pequeno kit em meio à pesada chuva que caia.
Peguei minha bicicleta e mergulhei na fria chuva às 6 da manhã em direção à qualquer lugar... Saí sem dizer palavra a ninguém. Guardar segredos sempre foi meu forte, até que, dividir segredos para além de mim, não me trouxe boas experiências. No sonho eu voltava a ter um segredo só comigo mesmo!
A cabeça estava confusa e não sabia por que pedalava, nem pra onde iria, nem o que pretendia com a estranha fuga de casa. Talvez eu só quisesse seguir o conselho de Mário Quintana quando fala da verdadeira arte de viajar:

“A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo...”

Naquela viagem onírica, a subida em direção à saída dos limites da cidade, traçava o caminho que me levaria, tal qual criança pequena e amedrontada, aos braços de meu pai... As lágrimas nos olhos se misturavam às incessantes águas da chuva que me davam a impressão de estar molhado até os ossos... Antes de sair definitivamente de cidade, andei quase 500 metros em busca de um atalho, mas desisti e voltei à estrada principal... Quase um quilômetro a mais de pedalada! Não tinha importância, pois a principal viagem era através de mim mesmo.
A tristeza amargurante, que nem o [aero] porto mais alegre conseguiu despistar, poderia talvez ficar ali naquela estrada... A cada metro pedalado, debaixo daquela chuva, lágrimas e sorrisos se alternavam num percurso trágico em busca de [re]construir a mim mesmo...
Num portal turístico que nada tem de especial além da cobertura, me escondi da chuva por uns minutos e comi uma banana...
O que fazer?
Eu poderia voltar e fingir que nada tinha acontecido, ou podia seguir...
Segui.
Mas seguir pra onde?
A chuva só aumentava e eu pouco enxergava... Raios e trovões em meio à colinas me davam um cenário totalmente rústico e desprotegido, sem para-raios, entregue a todos os riscos do tempo e da estrada...
Um caminhão urrou tal qual um dinossauro atrás de mim... Olhar pra traz seria perda de tempo em meio a tanta água que caia. Só senti quando fui arrastado, paralisando todos os meus nervos...
Passado tudo, pude olhar para o chão e ver o corpo em pedaços na pista...
Visão terrível...
Depois de  quase ser levado pelo vento da carreta que descia em alta velocidade, ver aquele tatu em pedaços não foi a melhor das imagens pra se somar ao meu susto...
O mau tempo persistia, mas às vezes a chuva dava pequenas tréguas...
Pensava em me livrar de todas as recordações ruins pedalando até não suportar mais a dor e o cansaço... Ora, não disse no último poema que o fim do mundo é quando acaba a dor? A melhor maneira de acabar com a dor é leva-la ao seu limite máximo!
Mas pôr fim à dor, seria uma adesão aos caminhos decadentes do niilismo...
Não!
Poderia chegar perto do limite físico e, ao atravessar a divisa para o outro estado, descansar na primeira cidade, pra continuar no outro dia o caminho que levava ao abraço de meu pai no final da estrada...
Às dez da manhã completei quarenta e um quilômetros de pedalada. Exatamente metade do percurso que ia até a primeira cidade após a divisa da ponte sobre rio.

De repente, esqueci que era um filho carente e assustado. Me lembrei que era pai também. A vontade de dar um abraço no meu pai se converteu em vontade de abraçar meu filho, que, exatamente um ano antes, perdia aos poucos sua frágil vida no meu colo em uma fila de hospital.
Meu filho está vivo!
Os médicos o levaram à UTI naquele dia 17 de dezembro passado, e, logo depois do natal, ele voltou pra casa...
Eu precisava vê-lo! Me certificar de que, neste ano, ele não sofreria tanto quanto o ano anterior.
Voltei sem pressa.
Substituí as pedaladas por caminhadas empurrando a bicicleta em longas ladeiras...
Ao meio-dia, perto do portal turístico que me devolveria aos limites de minha cidade, parei pra comer todo o lanche da mochila...
A volta foi pesada! Se eu completasse os 82 (quase 83 com o desvio) quilômetros, teria completado também a viagem até o outro estado, caso tivesse seguido em frente... Uma imagem interessante... Se chegasse em casa, bateria meu recorde de distancia percorrida em um só dia , sem uso de combustíveis inflamáveis.
Às longas caminhadas rendiam aos poucos dores na região do incessante encontro entre as duas pernas quando se movem. O céu, vez por outra, apresentava seu infinito azul entre as nuvens de chuva que, aos poucos, ficavam cada vez menos densas. Embora ainda houvessem nuvens, o mormaço ia queimando a pele desprotegida a medida que a tarde ia avançando... A cada passo a dor... No fim de tudo o amor...
Aquela dolorosa e pesada caminhada, carregando meu veículo, valia a pena, afinal, “Somente os pensamentos que temos caminhando valem alguma coisa...” (Nietzsche).
Chegar, antes de garantir o abraço ao meu filho, que era o que eu mais queria, me demandaria explicações de coisas, sentimentos que eu nunca soube explicar... Eu simplesmente não sei...
Não consigo separar em minha mente sonho e realidade. Acho que, no fim das contas, tento transpor todos os meus sonhos pra realidade, pra ver se no meu  mundo a realidade possa ficar mais palpável. Mas quem poderia entender isso?
Há tempos que perdi a paciência com a razão, a moderação, o comprometimento... Há tempos que não entendo como as pessoas conseguem programar seus sentimentos e explica-los um a um dentro de limitados padrões de comportamento. Acho que, no fundo, as pessoas não sentem mais nada... 
talvez seja eu o único a ter enlouquecido mesmo...
Talvez ainda me falte a lucidez necessária pra retirar todos os átomos de alegria possíveis desta loucura e chutar pra longe a tristeza...
Mas tudo foi apenas um sonho...
Eu que nasci em 82, quase 83, se tivesse pedalado 82, quase 83 quilômetros num só dia, deixaria marcas de sol no meu rosto. Algum, entre meus amigos que vieram me cumprimentar pelo meu aniversário, certamente teria notado. Tivesse eu cometido a loucura de pedalar mais de 80 quilômetros sem qualquer plano, aviso e preparo físico, teria dado pouca atenção aos meus amigos e teria ido dormir com meu filho na hora que eles estivessem ainda aqui em casa...
Que bom que foi só um sonho... Tivesse eu feito esta viagem onírica, estaria sentindo até hoje valiosas dores no meu joelho esquerdo...


quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Qual é o fim do mundo?

Talvez o fim do mundo seja o amor
Amor que se constrói junto à dor
Dor... Pode ser boa e trazer prazer
Ou então, terrível sensação de não poder
Na dor que vem e vai fica o amor
Prazer que vem e vai deixa o sabor
Mas o que é este amor que não se explica?
Eu não sei! Só sei que fica! Sempre fica...

Ouvi falar a voz de um sonho que ficou pra traz:
"Vai agora! Senão não te deixo ir embora nunca mais..."

Qual será o fim do mundo?
Bom pensar que seja o amor
Quando é o fim do mundo?
Logo que cessar a dor...





sábado, 8 de dezembro de 2012

Oito de Dezembro

Às vezes, o universo conspira, e a gente passa a viver um dia especial
Às vezes, o universo te pira, e tu tens que inventar sozinho o momento tal
Tem dias que lembranças das mais importantes tornam-se indiferentes
Tem vezes que um dia festivo veste-se de tristezas e rostos sorridentes

E o dia oito de dezembro como fica na memória?
Entre mortes e nascimentos se fez uma história:

Dia que interpretei erroneamente, não entendendo e matando as palavras
Dia em que tiraram a vida de John Lennon em covarde disparo de arma
Dia em que o Grêmio de Foot Ball Porto Alegrense mudou-se pra nova casa
Dia em que a Dalva nasceu, trazendo alegria pra todos onde ela habitava

As palavras mal ditas, nem ligo mais pra elas, morreram e foram tarde
A morte de John Lennon jamais matará sua música, viva na eternidade
O nascimento da Arena matará o Olímpico que ficará vivo na saudade
Os verdes olhos de Dalva se fecharam e eu contava doze anos de idade

Longe das mortes, nascimentos, palavras mal interpretadas... Longe de todo início e fim de caminhos, hoje eu caminhei com meu filho. Ele segurou na minha mão e não pediu mais nada em troca... Tá aí... dia especial... Sem piras nem conspirações:
A vida é assim: Partida, chegada, abraços de boas-vindas e de despedidas... Abro espaço pra mais uma ocasião especial a acontecer hoje: Mais uma vez vou me despedir de alguém de quem já me despedi outras vezes... Desta vez, sem melancolia... Este espírito itinerante, nunca destruiu nossa amizade e convivência, ao contrário, até nos aproximou mais... 
[Alô Curitiba! Tem sinal da Tim aí?]

Oito de Dezembro:

Nascimento da minha vó materna;
Morte de John Lennon;
Palavras mal entendidas;
[Hoje]
Inauguração da Arena do Grêmio;
Celebração de uma grande amizade...

sábado, 24 de novembro de 2012

Chuvoso

Do calor de cada centímetro do meu corpo
Formaram-se nuvens de chuva na cabeça
Um temporal então me escorreu pelos olhos
Minha alma, liquefeita, deparou-se com o frio
A dor forjada na brasa que, do nada, se esfriou
De repente, congelado, já não era mais eu
Já passou...
Mas não passou...
Sigo chuvoso!
O verão continua invencível só na mente
Minha mente que [trágica] mente o calor
Mas que importância tem tudo isso?
Tanto calor! 
Tanto frio! 
Nada demais...