sexta-feira, 3 de abril de 2015

Sexta da Paixão

Do alto da cruz, todo lambuzado de um líquido vermelho que não era meu sangue,
Vi um povo piedoso fingindo acreditar que eu sangrava.
A minha voz repetia frases repetidas por mais de dois mil anos
em igrejas, lares, bares e outros teatros como aquele...
Do alto da cruz eu, muito vivo, fingia morrer!
E as pessoas que fingiam crer na minha morte,
queriam me ver vivo novamente.
Então eu, morto de cansaço,
dolorido pelos parafusos que agarrei com os dedos na cruz,
ferido pelas pancadas que levei
quando os que deveriam fingir me bater me bateram de verdade...
Assim eu, morto, fingia estar vivo...
Todo de branco, braços erguidos e uma mensagem de fé e paz...
Todos me vendo, não me viam!
Alegres voltavam pra casa pensando ter visto,
mesmo sem ver, toda a paixão de Cristo...
E se de devoção não sou assim tão adepto,
ao menos de paixão eu sou...
E assim, apaixonado, entregava minha pesquisa,
minhas escolhas no roteiro,
meus acréscimos interpretaríeis em uma história clássica...
E com ajuda de muitos em cena,
o ciclo por várias vezes se repetiu:
vivo fingindo estar morto e morto fingindo estar vivo...
Por mais de três vezes morri!
Nas mortes, a parte tudo que perdi, sempre eu ressuscitei!
Agora a minha voz, que antes imitava as palavras de deus,

é ela própria a voz de um deus...

terça-feira, 31 de março de 2015

Inspiração e Vida

Não vou usar o clichê de dizer que "são a razão da minha vida". Não são! Até porque não acho que a tal "razão" seja lá grande coisa...
Com eles aprimorei meu egoísmo (entre todos os "ismos" o que mais me agrada)! E não no sentido raso e liberal do termo. Não enxergo possibilidade de existência humana alheia ao egoísmo. Até o altruísmo, na medida em que faz bem, tem finalidade egoísta! Tudo o que se pretende coletivista remete à diluição e morte do indivíduo em favor de causas mortas, vazias, alheias a vida...
Mas voltando a reflexão, com eles aprendi a aproveitar cada segundo e viver na urgência de não poder mais amanhã. A doença que assombra e provoca piedade sob uma perspectiva pessimista, é a mesma que em nós impulsiona ao deslumbramento e a intensa vontade (força) de viver!
De minha parte, quero entregar meus dias na tentativa insana de prolongar sua existência comigo! Quero mostrá-los que, embora a luta deles seja só deles, estou pronto pra ficar sempre perto e, se necessário, sacrificar minhas maiores vontades em favor de suas necessidades...
Por que isso se sou egoísta?
O meu egoísmo é assim... Minha luta pra vislumbrar o impossível é o que me inspira! Por isso adapto o clichê:
Eles são a inspiração da minha vida!
Hoje é dia de comemoração simultânea! Há exatos 9 anos convivo com o curinga Luiz Miguel. Em um mesmo 31/03, há 4 anos, chegou a pequena jocker Clara!
Bicicletas e muita alegria neste aniversário! Que venham mais dias de luta! Estou preparado!

"O meu egoísmo é tão egoísta
Que o auge do meu egoísmo é querer ajudar.
Não sei porque nasci
Pra querer ajudar
A querer consertar
O que não pode ser.
Não sei pois nasci para isso
E aquilo e o inguiço de tanto querer.
Carpinteiro do universo inteiro eu sou assim!
No final, carpinteiro de mim." (Raul Seixas).

sábado, 21 de março de 2015

Luz e Sombra

Claro e escuro
Outono e verão lado a lado
De um lado no rosto a barba
Um lado do rosto pelado

Dia e noite
Sem sol, chuva e corpo molhado
Conservo a alegria da vida
E um peito tristonho apertado

Bem e mal
Pro bem todos dizem dotados
Verdades com ódio gritadas
O mal sempre está do outro lado

E eu que não sou minha barba
Nem o nome por que sou chamado
Não sou o meu tipo sanguíneo
Nem o sangue por mim derramado
Não sou um perfil de internet
Nem um texto por mim editado
Não sou os trabalhos que faço
Nem o lado do rosto pelado

Sou da esquerda a mão que escrevo
Da direita o pé que chuta em gol
Não sou da Gironda ou San Jacques
Calado poeta não sou...

Sou caos, sou rural, sou cidade
Não sou só mais um, sou milhares!
Onde posso evitar os altares
Maniqueus desta sociedade?

terça-feira, 10 de março de 2015

O Impossível e os Sonhos

Por “motivo de força maior” não comecei o ano fazendo aquilo que estudei muito pra fazer...E não é que eu tenha “esticado as férias”, como maldosamente sugeriram alguns. Vivi dias de tensão e sem dinheiro algum no bolso... Acompanhei eventos espetaculares promovidos por colegas de profissão, escrevi e participei da gravação de marchinhas de carnaval bem peculiares, além de atuar como “Bike Bloc” em uma manifestação de rua:


Não tive coragem (cara-de-pau) de fazer uma selfie minha bloqueando o transito na última manifestação, mas, todo de preto, ajudando ao professor (esquerda da foto) e a outros ciclistas, me tornei um “bike bloc”.

Depois de dias tensos iniciei o ano nos meus locais de trabalho. Ano passado eu precisava sair de casa às 6:15 pra começar a trabalhar às 7:45. Um lugar excelente. Mas distante... Hoje saí de casa com a minha bicicleta às 7:51 e cheguei às 7:58 no colégio onde realizaria a preparação pra volta as aulas na próxima quinta...
À tarde a pedalada para um outro colégio teve mais que sete minutos: Foram dez. Uma boa e estranha sensação de voltar pro colégio em que fui aluno durante os quatro anos finais do ensino fundamental e todo o ensino médio...
Agora ali será meu local de trabalho.
Não recusei o “tour” proposto aos professores novos. Meu olhar não era o de quem conhece, mas de quem relembra muitas coisas a cada passo... Descrever tudo o que senti e pensei a cada passo demandaria tempo e paciência pra tentar traduzir coisas intraduzíveis. Mas olhei com carinho pra sala onde fiz o terceirão. Também segurei um livro bem velho de série vaga-lume que li na adolescência. Era o mesmo livro? Sendo a mesma biblioteca, bem provável que sim...
Mas a lembrança mais gostosa de lembrar foi de Jessica sentada na beira da quadra de basquete. A quadra não existe mais, é agora um jardim com bancos... Mas o “meio-fio” de onde eu olhava Jessica sentada estava lá...
Os acontecimentos de hoje reuniram condições de tentar resolver um desafio urgente proposto por um amigo que é sempre gentilmente aberto a responder perguntas, mas desta vez perguntou. Apenas uma:

“Como seria, pra ti, querer algo que não pode ter nessa e nem em outra vida?”

Acho que todos nós temos “querências” de coisas que nunca poderíamos ter. Foi assim com a Jéssica. Ela “descolada”, membra atuante do “grêmio estudantil” e da oitava série... Eu da sétima, quieto, tímido...
Ela falou comigo uma vez toda sorridente. Estava em campanha. Sua chapa “saudações a quem tem coragem” pretendia controlar o grêmio. Eu, bobo, não vi a militante, mas a garota linda que dirigia a mim a palavra... Suor frio e coração acelerado como nunca antes...
Sempre fui meio “nerd”, apesar de sentar sempre no “fundão” da sala. Nunca tirei nota vermelha, mas Jessica foi responsável direta por eu nunca ter entendido logaritmo. Quase manchei de vermelho meu boletim... O fato de eu ter tirado nota azul (ainda que no limite), faz pensar que talvez eu nem estivesse tão apaixonado como a minha memória acha que eu estava... Mas lembro que escrevi uma carta. Uma folha de caderno em frente e verso com algumas palavras e o restante preenchido com a frase “Estou apaixonado por você”. Era moda ver no “Show de Xuxa” cartas quilométricas com “Eu te Amo” repetido milhares de vezes. Mas, já naquela época, eu achava “eu te amo” muito forte pra ser dito assim ao vento, sem o devido cuidado e sentimento...
Minhas primas (as gêmeas) e meu irmão acharam a carta e riram, leram em voz alta, debocharam... Fiquei irado e “fugi de casa”. Parei abandonado em frente a uma igreja pentecostal, bem próxima do colégio Willie Davids (local da minha primeira pedalada de hoje). Lá ouvi um sermão onde o pastor afirmava que somente aqueles que professavam a fé que ele pregava estavam escolhidos para habitar o reino dos céus. Eu ali, com raiva e sentado no meio-fio, do lado de fora da fé, pensava: “Estou fora do Reino de Deus...”.
Mas nem era tão ruim... Se o tal reino teria aquele cara falando aos berros daquele jeito, era melhor mesmo estar fora. O que eu queria mesmo era entrar no coração de Jéssica... Minha fuga durou menos de uma hora e, recuperada a carta, dei um jeito de enfiá-la na caixinha de correio dela... Não sei se ela foi transferida ou passou a fugir de mim, mas não tenho mais nenhuma lembrança dela além daquela à beira da quadra...
Outras paixões vieram, algumas velozes/agradáveis/fugazes, outras longas/sofridas/prazerosas. A maioria, como sugere a palavra, tem caráter passageiro... Mas existe uma espécie rara de paixão que parece não ter cura:

"...está aí uma coisa misteriosa. Existem bilhões de pessoas neste planeta. Mas a gente acaba se apaixonando por uma pessoa determinada e não quer trocá-la por nenhuma outra." (O Dia do Curinga – Dama de Espadas – Jostein Gaarder)

O fato é que, depois da frustração com a Jéssica, consegui realizar muitas coisas que muitos julgavam impossível. Eu e meu irmão, criados na rua - e sob tutela da vó Mafalda - éramos cotados pra ocupar uma “vaga” nos presídios do país. No entanto, frequentamos universidade e nos formamos! Como professor, sempre quis voltar pro colégio onde passei toda a minha adolescência e o início da juventude! Hoje voltei...
Algumas vontades passam. Outras seguem como impossibilidades. Outras a gente sacia. Algumas, depois de saciadas, voltam a condição de vontades... Pras impossíveis, acredito que vale a pena preservá-las. Quem sabe o impossível não seja mesmo só questão de opinião, como disse um chorão...
Sigo sonhando voar. É bom guardar esta impossibilidade! Talvez um dia alcance o céu e as estrelas. Mesmo sendo mais provável que a gravidade um dia me vença definitivamente, esmagando meus ossos inertes junto à terra, ainda assim vale a pena olhar pro céu com desejo...
Sei que não solucionei a pergunta. Não é o meu forte achar respostas! Gosto de perguntar... Mas espero ao menos ter colorido o urgente questionamento do amigo citado...
Pra fechar as emoções do dia de hoje, uma lembrança que impulsionou uma vitória pro agora: O Luiz Miguel ganhou uma bicicleta ao completar cinco anos. Depois de ter sido diagnosticado com doença rara no ano seguinte, precisou ser preservado de qualquer atividade de risco, pois sangramentos pra ele podem ter graves consequências. Agora, perto de completar nove anos e, graças à confiança dada por um equipamento de segurança, ele pôde finalmente dar as primeiras pedaladas sem rodinhas...
Um dia de muita alegria...
Se ele queria muito pedalar, vontade realizada. Entre outros desejos que ele também tem, quer muito um dia poder jogar bola (atividade não recomendada na situação dele). Quem sou eu pra desestimulá-lo? Ele sempre me diz que será “o melhor jogador de futebol do mundo!” E atuando com a camisa do Londrina!!!
O futuro não me interessa agora. Hoje, na quadra onde já fiz gol no filho do ídolo/goleiro Nenéca (a mesma onde meu pai jogava futsal na juventude) meu filho se tornou “o melhor ciclista do mundo”!
Quem sou eu pra duvidar de sonhos?
“Sonhar é acordar-se pra dentro.”

(Mário Quintana)

domingo, 25 de janeiro de 2015

Mergulho Ascendente

Precede a Romeu todo amor
Tragédia que esmaga o viver
Chama que aumenta na dor

Julieta sentindo o impossível!
Impossível é não te querer
Unidos por força invencível!

Tragédia que faz perecer
Saudade - presença ficou
Morrendo pra sobreviver
Da vida outra morte brotou

Anseio a viagem no tempo
Passado previ no baralho
Mergulho subindo no vento
Fazendo soneto ao contrário

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Tuba Nosso

Este ano fui muito mais torcedor
fui muito menos poeta/escritor
Este ano fui mais professor
e muito menos trágico/fala-dor

Mas também escrevi...

Paródias para meus dois ofícios!
Abaixo a oração e no vídeo a primeira paródia que escrevi entre tantas no ano que se encerra em instantes! Um eu torcedor que também fala:


Tuba nosso da cor do céu

Que os escalados honrem vosso nome
Seja com garra até jogo treino
Joguem com raça e muita vontade
Em jogo amistoso ou valendo troféu

Elenco forte e bem sucedido nos dai hoje

Preparai um time que vença
Assim como nós apoiamos num jogo que tenha perdido
E nós cantaremos pra vê-lo campeão
Vençamos os da capital

Amém.

sábado, 29 de novembro de 2014

CH 8

CH(SH)akespeare,
CHarles
CHaplin,
CHapolin,
CHapatin,
CHaves,
CHespitito!
CHora
CHiquinha...
CH 
Valeu Bolaños!!!

Vivi Cada Segundo

Na semana passada veio a notícia da morte do Luciano Leindecker!
Putz...
Depois de ver o show do Pouca Vogal duas vezes, passei a desejar muito ir a dois shows: um do HG tocando baixo, e outro do Cidadão Quem.
O do HG eu vi em Maringá!
O Cidadão Quem voltou a fazer shows...
Esperança...
Cheguei a sondar a possibilidades de ir ver um show em Porto Alegre.
Não deu...
Mas a chama estava acesa até que...
Fim de papo.
A morte do baixista marcou o derradeiro fim de uma banda que marcou profundamente minha história.
Mas a vida é assim mesmo...
Algumas coisas acontecem conforme nossos desejos, ao passo que, pra outros desejos, é preciso se conformar.
Mas o desejo não realizado não apaga o benefício de ter mergulhado no universo da banda. Em meio a tentos dramas em sua história, vários discos espetaculares, que continuarei levando comigo como fundo musical dos meus dramas pessoais.
Entre tantas coisas, eles enfrentaram a morte do primeiro batera em um salto de paraquedas, a história do câncer que levou muito cedo o pai dos irmãos Leindecker e, agora, novamente um câncer levando o Luciano...
Bah!!!
Não sabemos quanto tempo nos resta.
Putz...
Agora se foi o Chespirito, exatamente uma semana depois...
Obrigado Mathias por ter pirateado o Cidadão Quem pra cá através do Juliano!
Valeu Luciano Leindecker!
Valeu Cidadão Quem!
Uma das músicas da banda que mais me marcaram é esta que toquei ontem no ukulele, quando a noite ia caindo, no sétimo dia do fim da Cidadão Quem:
"Foi pouco tempo, mas valeu
Vivi cada segundo..."

domingo, 20 de julho de 2014

Amizade - Amor Sublime

“Você é meu melhor amigo!”

A frase saiu assim, inesperada e surpreendente...
Sendo a amizade o mais sublime dos sentimentos, aquele que está no auge dos caminhos do amor, o adjetivo “melhor”, talvez não engrandeça o sentimento, por si só, grandioso. Mas pareceu, da maneira que me foi dito, uma maneira de tentar traduzir em uma frase toda a alegria em me ter ali, ao seu lado...
Cinco palavras colocadas assim, lado a lado, de uma maneira inédita pra mim! Tudo bem se aquilo foi dito de maneira relativa, sendo eu o seu amigo mais próximo, único naquele momento, quando nosso mundo se resumia apenas a nós dois... Cinco minutos depois as cinco palavras poderiam ser ditas a outras cinco pessoas... Pouco importa!
Do alto de minha alegria, não consegui responder à altura. Eu, que sempre tive muito cuidado e certo receio destes sentimentos sublimes, justamente por tê-los como sagrados, fiquei mudo. Mudo e radiantemente alegre.
Não ouço mais aquela voz há algum tempo...
Sua presença em minha vida nunca foi obrigatória, contratual, ritual...
Simplesmente estávamos ali, lado a lado - naquele momento.
Tivesse a oportunidade, devolveria as cinco palavras àquela pessoa de maneira semelhante...
Talvez aquele sentimento profundo, tão evidente na época, não tenha sobrevivido às engrenagens do tempo. Talvez ainda nos amemos em silencio, em segredo, em um consentimento inaudito de manter distância. Situação que poderá ou não se acabar um dia. Talvez sejamos hoje totalmente estranhos um ao outro. Não sei..
.
De si guardei apenas o nome, o sorriso, a face, o olhar, a voz e as mais agridoces recordações...
Apenas?
Isso ainda me faz sorrir!
Os mais alegres e gratos sorrisos.
Pudesse esquecer tudo, talvez por instinto ou natureza, me inclinaria a repetir tudo novamente. Talvez trajado com outros valores e percepções sobre o mundo. Mas que importam os valores e percepções quando temos por perto alguém que, pela simples presença e aroma nos traz inenarráveis alegrias?
Mas ainda lembro...
A eventual tristeza de não mais ter, é infinitamente menor que a alegria de ter tido!
Desejo tudo de melhor para si. Sei que talvez este melhor leve a uma estrada que nunca mais se encontrará com a minha. Mas se porventura nossos caminhos mais uma vez se tornarem paralelos, estou hoje pronto para devolver as cinco palavras. Sairiam acompanhadas da interrupção da saudade e do contentamento pelo novo privilégio...
(Friedrich Nietzsche, A Gaia Ciência, aforismo 14)

Feliz dia do Amigo!!!




sábado, 31 de maio de 2014

Canção Silenciosa

Quantos momentos divididos entre nós
Instantes... Fortuna que ousamos repartir
Frases, cores, ações, sensações...
Tudo junto em uma única canção

Lado a lado alguns momentos, mas distantes
Tão distantes, beijos frios em sol ardente
Frases, coisas que deixamos de fazer
São só pausas: do silêncio sai canção

Corações despreparados não entendem
As cabeças já formadas não toleram
Só os tolos poderão compreender

Minha história é verdadeira: sem verdades
Sou rebelde e sigo regres de soneto
Do silêncio sai canções que nunca esqueço
 (02/04/2005)