quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Compreender o Vento


Viver é esforço artístico de construção de si
E há um universo imenso dentro de cada um
Talvez a grande sacada seja compreender o vento
Observar, levantar as velas e seguir navegando
Com o coração atento, se saberá onde atirar a âncora
Mas sempre será necessário recomeçar.
E a vida segue o fluxo incessante do navegar/ancorar
Ambas decisões exigem coragem e perspicácia
Seja qual for o instante, é nele que a vida existe
Só no agora a vida acontece, então, sigamos!

"Quanta mudança alcança o nosso ser
Posso ser assim, daqui a pouco não"




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Céu Suburbano


Os construtores me vieram sem aviso
E destruíram frutos, flores, folhas, troncos
Construtores de ruínas sem sentido
Moto-serras e o terror daquele ronco

Do trabalho regressei sem despedir-me
Das sombras que há tempos houve aqui
Olhos d'agua, coração aguente firme
Menos verde ao meu redor, então sofri...

Mas encontro um outro verde rastejante
No contraste com o azul que tão venero
Suburbano céu de azul exuberante

Traz de volta o verdazul que tanto quero
Do contraste mata e céu, como era antes.
Zona leste, não te tornem um cemitério.

"Penny Lane [Fraternidade]
is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit and meanwhile back.."
(The Beatles)



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Amor na TV

Eu vou mandar a nossa história de amor pra Globo,
pra ver se vira novela, com cenas no Vídeo Show
Vou inscrever o nosso caso também no Sílvio,
mostrar pro seu auditório, que eu topo tudo por amor.
Vou telefonar, testemunhar nosso amor na Record
pra ver se vira milagre, na pregação do pastor.
Eu vou mandar os nossos lances também pra Band
pra ver se rola outra chance, Terceiro Tempo de amor.

A nossa história passando
Dentro da tua TV
Se preferires ficar sozinha
Mando tudo pra CNT!

Eu vou mandar a nossa história de amor pra Globo,
pra ver se rola reprise, comedia no Tá no ar
Vou inscrever o nosso caso também no Sílvio,
pra no baú da alegria, os nossos beijos guardar
Vou telefonar, testemunhar nosso amor na Record
pra exorcizar a distância que insiste em nos separar
Eu vou mandar nossos sabores também pra Band
pra ver se vira receita, um Master Cheff de amar.

A nossa história passando
Dentro da tua TV
Se preferires ficar sozinha
Mando tudo pra Rede TV!


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Dias secos e olhos úmidos

É tanto pó que me sinto Arturo Bandini, o autor de "O Cachorrinho Riu".
Logo eu, autor de muitas coisas e de coisa alguma...
Tanto pó na Pequena Londres deste inverno seco,
Que parece estar ao alcance das mãos, desenhando meus rastros!
"Pergunte ao pó por onde andei".
Talvez o pó dos caminhos por onde deixei pegadas
Ou até, mais ainda, meus rastros de pneu de bicicleta,
Falem mais de mim que estas poeirentas palavras...
O céu anuncia aos olhos o fim da estiagem,
Os olhos que, umedecidos, travaram dura guerra contra a secura dos dias.
O cheiro de chuva que me chega às narinas anuncia a água do céu.
As narinas que se defenderam do pó com coriza,
que se escorria nojenta em meu bigode e barba.
O vento que sopra no rosto, agora sem barba,
Traz o toque fresco a uma pele que se escondeu como pôde da secura.
O deserto invernal finalmente vai-se embora...
Os ouvidos escutam tal qual um rock progressivo o som de um trovão!
Bendito deserto freezer!
Que me faz cultuar agora a chuva como um milagre!
Bendita chuva que chega, neste baixo inverno,
Para começar a preparar os caminhos floridos da primavera!
Não me sinto mais o trágico escritor da poeirenta Los Angeles dos anos 1930!
Sou agora eu mesmo!
Ainda que não saiba ao certo o que ou quem sou eu agora!
Será que importa mesmo saber?
Não sei...
Só sei que a chuva que sinto caindo devagar em minha pele
Muda a estação de meus sentidos!
Já não é mais tempo de me desaprender!
Já não é mais tempo de me deixar de fora, nas margens de mim.
É tempo de me apreender!
É tempo de ser Jeferson Sabran, autor da obra mais legal
Só por ser legal pra mim, que a construo e acompanho como primeiro leitor...
Sou agora um trágico autor de mim mesmo.
Autor sem rastros de pó, mas cheio de respingos d'água,
Que rapidamente se dissolvem e se devolvem ao cosmos
Pela força da energia dos raios de sol que enchem de vida
O cenário que se enxerga daqui da linha tropical do Sul do Mundo.
Mas não agora!
Pois agora chove!
Agora não há mais rastros de pó,
Apenas água que escorre e flui
Assim como eu, que já não sou mais o autor do primeiro verso.
E que não serei mais o autor deste poema sem rima, assim que escrever o ponto final.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

Luar de oito

Oito do oito
E eu afoito
De pé o infinito
Entalado grito
Viva a lembrança
E a alma dança
Na lua cheia
Olhar vagueia
E o oito ainda é
O infinito em pé.

sábado, 22 de julho de 2017

A pé, longe da "Cidade Digital"

        Parou e ateve-se ao cansaço que sentia. E não é que já não estivesse parada. Estava, embora movesse os dedos deslizando para cima o “feed de notícias”. Sempre mais do mesmo: esportivos, zoeiros, animaizinhos fofinhos, religiosos e seus contrários (uma minoria de ateus chatos e um tanto maior de cristãos chatos), famílias felizes, indivíduos revoltados, meteorologistas (aqueles que quase morrem de frio ou de calor, dependendo da estação do ano), musicas ruins, um pouco de musica boa, filósofos da moda em vídeo, dicas de coisas práticas e fáceis de fazer, militantes de política...
        Os piores para ela eram os últimos! Sempre haveria um espertão para dizer que “em tudo fazemos política”. Sendo assim, ela preferia fazer sua própria política da poesia e da boa música! Sem que fosse trancada em qualquer sistema de ideologia. A única concessão que fazia à palavra “ideologia” era à voz de Cazuza.
        E foi justamente a sua paixão pelo Rock Nacional que a tinha deixado do jeito que a encontramos ali no primeiro parágrafo: cansada. Quando parou de olhar aquele “museu de grandes novidades” nas notícias da rede social, lembrou do “Dia Mundial do Rock”. Para ela todo dia era de rock. Mas com a hashtag bombando, achou que, ainda mais que os outros, tinha direito de publicar uma música também.
Ouvia Legião Urbana, terminando o disco “Dois”. Procurou no YouTube um vídeo com a música “índios” e publicou na rede social. Não demorou para aparecer alguém comentando: “graças ao mimimi esquerdista mortadela de gente como esse Renato Russo , blá-blá-blá de índio, de gays, difamação dos militares e outras baboseiras que o país virou essa merda!”. Teve vontade de estar diante da pessoa para dizer bem alto um palavrão! Depois se acalmou e pensou que se estivesse diante da pessoa, perguntaria: "você prestou atenção no solo de violão desta versão acústica da música?" No fim não quis estar diante daquela pessoa. Quem faz um comentário desses não teria ouvidos para qualquer argumento contrário. Como não queria discussão, e como existem tantas outras canções de Rock no mundo, simplesmente apagou aquela e escolheu outra.
Enquanto pensava em algo mais tranquilo que Legião Urbana para postar, digitou quase que naturalmente “Nando Reis”. Apareceu uma música recente, que ainda não conhecia: “Só Posso Dizer”. Achou a música linda. Quem poderia reclamar daquela canção de amor? Postou. Três pessoas logo curtiram! Ufa... Sem brigas agora. Foi então apareceu um comentário: “Saudades daquele Nando dos Titãs, engajado, tocando baixo, fazendo rock de verdade... Na situação que vive o país o cara fica ainda fazendo essas musiquinhas de amor. Em que planeta ele vive?”. Nem quis perder tempo pensando no comentário. Apagou a postagem.
Começou a ficar enjoada! Só queria celebrar o dia do rock com um rock. Mas sem discutir com ninguém. Lembrou do Oficina G3, Rock pesado e com letras sobre Deus. Quem poderia ir ali falar mal de Deus? Escolheu uma música das antigas e postou. Veio então o primeiro comentário: “Oficina G3 é uma benção. Se aproxima perigosamente de coisas do demônio para resgatar os mais perdidos no mundo. São verdadeiros anjos, principalmente para esses roqueiros drogados que andam por aí.”. Ficou ofendida com a associação do Rock com “coisas do demônio”, mas, pelo menos, dessa vez não havia crítica à musica e à banda. Foi aí que alguém respondeu ao primeiro comentário: “vocês fanáticos são responsáveis pela morte de milhares de pessoas que sofrem com sua pregação de ódio. Se dizem membros da religião do amor, mas vivem atacando todos os que não seguem suas regras idiotias”. O que? Guerra Santa seria demais para ela. Apagou.
Sentia-se inútil. Seria possível apenas fazer uma homenagem ao seu ritmo musical preferido sem que alguém se inflamasse em fúria? Seu sentimento de inutilidade levou inevitavelmente a procurar a música “inútil” do Ultraje a Rigor. Escreveu na descrição antes de postar: “Espero que não me apareça nenhum inútil reclamando dessa música. #DiaMundialDoRock”.  Nessa veio o comentário mais rápido: “Inútil define bem esse reacionário coxinha, sempre militando contra os pobres. O discursinho babaca dele ajudou a colocar os corruptos que aí estão no poder.”. Chega! O que a opinião do cara tinha a ver com essa música? Talvez o problema seja o Rock Nacional. Pessoas muito inflamadas com a política local.
Decidiu então fazer uma última tentativa. Agora apelaria para The Beatles. Procurou “Don't Let Me Down”, tocada em cima de um prédio. Escreveu apenas a hashtag e postou. Muitas pessoas curtiram. Alguns comentaram coisas do tipo “Um clássico – viva o rock”. Parecia ter acertado a mão desta vez. Foi preparar um chá enquanto ouvia o disco Gita, do Raul Seixas. Riu ao ouvir "As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor" e lembrar de suas aventuras na "cidade digital".
Depois de um tempo ouviu o som de um novo comentário: "Não foi por acaso que esse Lennon Morreu. Deus o castigou por ter dito que essa bandinha era maior que Jesus. Teve o fim que mereceu, ele e essa bandinha”. Raul cantava ao fundo "Viva a Sociedade Alternativa". Escolheu então ignorar. Viveu aquele dia do Rock ouvindo rock. 
Agora, dias depois, passando por mais do mesmo na "cidade digital" lembrou daquele fatídico Dia Mundial do Rock. Como já sabemos, sentiu-se cansada. Cansada que estava, levantou-se e decidiu descer as escadas e se atirar na rua. E caminhando a pé encontrou um vizinho que disse "que governo safado, já aumentaram o preço da gasolina!". Fez uma careta para contenta-lo, acenou despedindo-se e seguiu... A pé, sem se importar com a gasolina. Sorrindo, sem se importar com o frio que fazia...

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Poema des...

Sou apenas um maldito escritor agora.
Sonhei com um maldito pneu furado,
Lembrei do maldito furo ser pequeno
Deixara o maldito remendo para depois.
Maldita mania minha de incompletude...
Tenho um maldito romance por escrever,
Malditas ideias de contos não começados,
Livros não lidos cobertos de maldita poeira!
Entre malditos poemas por vestir com melodia,
Reservo lugar para um maldito poema despido!
Militante das reticências que resolvem tudo...
Benditos três pontinhos que abrigam o mundo!
Até os poetas malditos que...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

GRAVE

GRAVE ESTE INSTANTE
QUE NUNCA MAIS VAI VOLTAR
TÃO GRAVE E TÃO IRRELEVANTE
QUE ESSA VIDA UM DIA VAI ACABAR

O QUE PASSOU NÃO VOLTARÁ
FUTURO É SÓ PROJEÇÃO
A VIDA INTEIRA NESTE INSTANTE
NESTE PULSAR DO CORAÇÃO...

A GRAVIDADE A NOS PUXAR
O MOVIMENTO NEGA O CHÃO
E NESTE INSTANTE QUASE VOO

SENTINDO OS GRAVES DA CANÇÃO

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Céu da Véspera do Inferno

E era assim,
um dia típico de baixa primavera
na latitude 23 do Sul do Mundo.
Manhã fresca, tarde abafada e
chuva passageira antes do ocaso.
Ele era meio místico
Não obstante seu forçado sarcasmo.
Ria e cria piamente (ainda que de passagem)
nos efeitos do “inferno astral” em si.
Vinha vivendo o seu ao lado dela.
Mas uma constatação o abalou!
Sua "companhia medicinal" repentinamente
(como a chuva) viraria veneno...
Ela entraria amanhã no “inferno astral”.
Como poderia suportar dois infernos?
Assim, aquela presença que outrora curava
precisaria ser repelida, banida...
E não é que não a amasse. Pelo contrário!
Mas como querer ser maior que os astros?
Como desafiar o que era ordenado pelos céus?
Assim ele a deixou.
Ela não entendia e não aceitava.
Procurou entender, mas ele anunciou,
solenemente, e com rispidez
que ele não era mais ele...
Era hora de partir e deixar partir...
E entre tantos partidos e partidas
se partiu seu coração...
cabisbaixa pela rua, iniciado o inferno
sentiu-se culpada e chorou...
A dor afogava o peito trepidante,
enquanto as lágrimas limpavam os olhos.
Quando estava há um passo do abismo,
sentiu a chuva alcançar e abraçar
cada centímetro da sua pele...
Mal se molhara e já sentia a chuva partindo
Por que se foi tão depressa?
Mas não tinha volta - a chuva ausente ficou em si!
O frescor e a roupa molhada eram revigorantes.
Abriu os olhos e nem quis olhar para o abismo.
Resolveu erguer a cabeça e olhar pro céu.
Ficou na dúvida se o céu sempre fora lindo assim
ou se era efeito de sua dor... dor?
Sentia agora um prazer inexorável!
Sentia alegria pela chuva que passou.
Sentia alegria pelo amor que partiu.
Sorria de lembrar tudo de bom que viveu.
Trocar a postura cabisbaixa pelo céu.
Sentir gratidão pelo vento que passa.
Mas que fica ali, no corpo transmutado.
Tudo é transmutação, tudo passa...
O que não passa é esta reverência pela vida.
Agradecida sorriu como nunca tinha sorrido.
Lembrou-se que estava no inferno, mas que,
mesmo dali, podia-se voar até o céu com os olhos.
Podia-se enviar seu cheiro a viajar com o vento...
Podia-se amar aquele instante de vida inédito,
único, irrepetível, raro, sublime...
E se havia qualquer possibilidade de um dia se culpar
apenas por ter vivido a vida em sua plenitude,
o céu desenhou pra si um arco-íris respondendo:
Basta erguer a cabeça para tocar o céu e afirmar a vida!

Na pólis do amor não há espaço para culpa!
E s houver dor, que seja pra trazer a alegria!
Amém!

“...o meu inferno é o céu
pra quem não sente culpa
de nada...”
(Herbert Vianna)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Pedalada Engarrafada.

Gostaria de poder colocar cada centímetro pedalado ao seu lado em uma garrafa de vinho.
Esquecer que as vezes corro pra longe de ti por não suportar odores que pra ti são aromas essenciais.
Lembrar, no entanto, de todos os motivos que tinha pra fugir da nuvem de cigarro no lugar que eu estudava e respirar o ar puro do teu local de estudos.
Ah... Que estou eu a dizer? Esquecer... Lembrar...
Somando tudo e colocando na balança dos momentos que valem a pena ser vividos, sobram motivos pra agradecer.
Então coloco na garrafa de vinho o meu pneu de pista e o seu pneu de trilha.
Meu baixo viola e sua guitarra strato...
Nossos bons momentos em jogos de futebol e shows que curtimos juntos, e também aqueles que curtimos longe.
Coloco na garrafa o encantamento com certas ideias filosóficas, os impasses, os debates e a satisfação de chegar a bons argumentos temperados com o nosso salgado (e sagrado) suor.
Coloco na garrafa amoras e pitangas, um rio, um pedágio, uma usina histórica que já não existe, um outdoor, uma passarela e uma autoestrada federal onde pudemos deitar por alguns minutos...
Coloco as histórias que ouvi, e as histórias que contei...
Algumas histórias servem pra entreter, suportar os trajetos, as subidas.
Outras histórias são graves, fruto de muita imaginação em torno de um enredo que soa como ideia fixa.
Como foi bom verbalizar a ideia fixa!
Ver aquela frágil semente despontar pela primeira vez em palavras faladas.
Passo inicial pra uma história escrita, ou não...
Não sei que odores eu tenho exalado em minha sede de ar puro.
Mas sei reconhecer quando os teus sentidos silenciam em busca de ares diferentes dos meus.
Não sei se haverá ocasião em que andaremos novamente em busca dos mesmos odores, pistas, estradas ou melodias...
Amanhã? Depois? Talvez a frase do poeta (que não é nenhum de nós) peça um "tanto faz" ou "nunca mais"...
Mas "tanto faz" não seria opção pra mim...
Prefiro a imagem da garrafa de vinho. 
Possibilidade de sorver cada momento novamente.
Mesmo que a vida condene a um eterno suor solitário.
Poder agradecer pelo que passou e pelo muito que ficou disso tudo.
Me abstenho no entanto de projetar... 
Criar expectativa para além de mim seria uma forma de tirania.
Então não espero. 
Mas celebro como quem viveu momentos que nenhum sábio, rico, milionário, ou santo viveu. 
Momentos únicos e irrepetíveis. 
Momentos que eu gostaria que tivessem durado um pouco mais...
Momentos que ajudam a afirmar uma vida que vale a pena ser vivida...
Ao último ser humano que me suportou por mais de duas horas, 
Deixo um grande abraço e pedaladas engarrafadas neste dia especial!