sexta-feira, 13 de abril de 2018

Entre Beijos


Quantos últimos beijos estão acontecendo neste momento?
A vida boa é a que sucede entre o primeiro e o último beijo
Aos amargurados resta ditar regras contra os apaixonados,
Cabe aprisionar todos os beijos em canções ruins nas rádios.

Quantos primeiros beijos estão acontecendo neste momento,
Arrebatando um par de apaixonados deste mundo cruel e frio?
Aos apaixonados resta a resistência alheia às forças contrárias
Resta traduzir todos os poemas de amor no toque de seus lábios.

Como a sobrevivência ocorre entre o ascender e apagar do fogo
Que há milênios garante o melhor de alimentos e bebidas quentes
A vida continua a proliferar entre primeiros e últimos beijos!

Como a morte sempre chega na lenta incineração da vida no fogo
Haverão sempre moribundos a desviar o foco do melhor da vida:
Que é tudo o que se passa entre os primeiros e os últimos beijos




quarta-feira, 4 de abril de 2018

Mateando no Paraíso


Nem sei há quanto tempo tenho este hábito, mas basta sair da região de chão vermelho e chegar a outra cidade para sentir a urgência em entrar num supermercado e checar um item especifico: erva mate. Tostado não me interessa, procuro o chimarrão. Minha memória mais profunda desta busca remete a Bauru-SP. Embora relativamente perto, só havia uma opção de erva. Justamente a pior de todas, a mais barata e ruim que se já provei. Uma Erva produzida no Paraná, mas que leva o nome de adjetivo gentílico de outro estado... Uma bosta (será que é mesmo? De cavalo ou boi?). Naquela ocasião, preferi tomar chá tostado do que comprar aquela erva.
Tudo bem que em Londrina não há aquele arsenal de opções, mas a variedade é boa. Se não dá para dizer que é um hábito comum aos londrinenses (como quase nada é nesta cidade cosmopolita), também não dá pra negar que há uma boa procura. Não é incomum encontrar as gondolas vazias ou reviradas. Procura que me parece ser proporcional a procura pelo terere. Sendo gelado ou quente, a erva mate com água, dentro de um recipiente, sorvido por uma bomba, não é uma cena rara de se ver.
Um panorama bem diferente do Rio de Janeiro, onde ouvi na praia gritos efusivos: “OLHA O MATE, OLHA O MATE, OLHA O MATXIIIIEEE”. Os gritos que me levaram a esperança de matear à beira-mar, próximo das ruas por onde outrora caminhava Machado de Assis, levaram a uma decepção. Era chá mate de erva tostada (gelado). Em Curitiba não encontrei ervas muito diferentes das que encontro aqui, mas em Santa Catarina sim. Primeiro experimentei uma erva catarinense que se tornou minha preferida. Já pedi para um amigo que foi para o litoral de lá “traficar” esta erva pra mim. Também já fui pessoalmente buscá-la. Hoje em dia essa erva é vendida em uma das redes de supermercado daqui...
De volta ao litoral catarinense, viajei com cuia e bomba, mas sem erva. Queria provar outras marcas. No supermercado, fiquei lendo os rótulos para saber a origem de cada uma das marcas. Desta vez estava decidido a encontrar uma erva produzida no estado que tem um ramo de erva-mate na bandeira, o nosso. Achei uma, de General Carneiro: Paraíso. Embalagem simples, diferente daquelas brilhosas metálicas à vácuo. Peguei um pacote. No caixa, o rapaz que atendia pegou a erva, olhou por alguns instantes e pareceu ter um leve devaneio. Então disse:
— Muito boa essa erva!
— Ah, é? Essa não tem na minha cidade, estou levando para experimentar.
— Essa é de lá da minha terra!
— General Carneiro?
— Não, sou de União da Vitória, bem perto!
— Legal! Tenho um amigo de lá, fez mestrado comigo em Londrina.
— Qual o nome dele?
— Carlos Almir Matias.
— Não conheço...
— Mas a erva é boa mesmo?
— Muito boa! Região da erva-mate no Paraná!
— Aqui em Santa Catarina são famosas as ervas de Canoinhas, certo?
— Sim! É no caminho: Tu pega a estrada aqui, passa por Jaraguá, Rio Negrinho aí é Canoinhas. Depois tu passa em Porto União e chega no Paraná, em União da Vitória, que é colado.
Ele fez todo o gestual de quem ensina o caminho para alguém que está perdido e querendo chegar até o local em questão. Não era o caso! Naquele momento, bastava saborear a erva Paraíso em frente ao mar. Agradeci o papo e as indicações do caixa/guia-turístico paranaense e voltei caminhando na direção oposta ao interior produtor de mate. Preparei a erva, peguei a cadeira de praia e fui saborear o paraíso e a brisa fresca do alto Outono. Não sei ensinar a ninguém caminhos que levem a um paraíso, mas naquele momento, mateando com filhos e amigos em frente ao oceano atlântico, senti estar no melhor lugar de todo o universo. E assim, com este endosso cósmico, posso recomendar: a erva-mate Paraíso, produzida no sul do Paraná, é realmente muito boa! Mas qualquer erva de qualidade serviria para aquecer o coração, no Outono quente e movimentado aqui do Sul do Mundo, ou na Primavera gelada do Reino Unido, onde minha conterrânea Cinthia está a matear e a falar do nosso “chá” para os gringos neste momento...
Antes de voltar pra Londrina, voltei ao supermercado e comprei mais pacotes da erva... Sem maiores problemas de tráfego na Rodovia do Café, cheguei à "cidade do café" (que vende nos supermercados cafés mineiros e paulistas) com meu estoque de erva-mate abastecido.



segunda-feira, 19 de março de 2018

Entrevista


Fui convocado para uma entrevista. Estão querendo que eu me assuma:

— Vou direto ao ponto: Tu tá dando muita pinta!
— Pinta de que?
— Todo mundo está percebendo...
— Todo mundo quem? Percebendo o que? Dá para ser mais específico?
— Essa sua mania, digamos... Diferente...
— Ah, mania? Isso não é mania! Sou isso! Sem isso, não sou!
— Tá... Então tu precisa se assumir!
— Assumir o que? Para quem? Sou assim, não devo satisfação a ninguém!
— Deve a mim! E as pessoas precisam saber. Pelo menos pra mim tu tem que se assumir! Tu é, mesmo... Digo... Não é só, digamos... Curiosidade?
— Veja só... Quem é você pra ficar cheio de censuras comigo? Na hora da necessidade você usou e abusou de mim para conseguir o que queria! Tornou-se professor com minha ajuda! Na graduação, especialização, mestrado... Sempre estive lá para que você se tornasse quem é hoje!
— Tudo bem! Tive sua ajuda sim! Mas nunca disse que eu era... Tu sabe...
— Ah, não? E aquela história de “Estação Raul”? Eu estava lá! Depois veio o “Trágica Mente Falando”. E o que você disse que era mesmo? “Blogueiro”? Faça-me o favor... Isso sem falar no “Clã Curinga”, “Los três espideros”, e o pior de todos: “LEC N’ Roll”. Veio com desculpinha de futebol pra usar de todas as minhas habilidades, e agora quer me negar?
— Não é isso... Não estou te negando! Mas é que eu preciso saber! Tu é parte de mim...
— Uma parte que você vive omitindo, não é? Agora quer que me assuma por que?
— Não é que eu esconda nada... Só acho que não precisamos expor nossa intimidade assim. Ninguém tem nada a ver com o que se passa dentro de nós.
— Está percebendo? Você é incoerente! Sempre quis me esconder, agora quer que eu grite para o mundo que existo e sou isso mesmo?
— Sim... As coisas mudaram um pouco. As pessoas tem me cobrado! Já não sobraram muitos amigos dispostos a conviver com nossa personalidade forte, os problemas de saúde das crianças e outras coisas... Mas os que persistem próximos às vezes perguntam por que ando tão sumido. E isso é culpa tua! Preciso que assuma de uma vez por todas! Só assim posso, ao menos, ter algo a dizer, embora talvez não sirva de justificativa...
— Mas você nunca se importou muito com o que as outras pessoas pensam! Por isso não entendo essa mudança de postura!
— Acho que estou cansado! As pessoas ao redor parecem cada vez mais apegadas em estereótipos bem delimitados. Não quero continuar vivendo desta aparência de indivíduo completo! Somos muitos! E mesmo estes muitos que somos, vivem se alterando, discutindo, brigando: Como estamos fazendo agora!
— Acho que te entendo! Nunca achei que fosse necessário me assumir, mas já que você insiste... Mas os outros estão de acordo?
— Que outros?
— Todos os outros! Quantos somos?
— Sei lá... Tem eu, sua consciência, tem o professor e suas subdivisões: é um no ensino fundamental e outro no médio. Um ensinando História e outro ensinando Filosofia ou Ensino Religioso. Mas tem também o ciclista, o consumidor, o morador, o músico, o ator, o pai... Sei lá... Somos muitos! Não quero ficar rotulando tudo o que somos...
— Então porque quer que justo eu me assuma?
— Tu é a parte de mim que me acalma. Gostaria de dedicar mais tempo a ti. Sei que isso não me levará a nada! Tu me é inútil, do ponto de vista financeiro... E é por isso que te amo tanto! Acho que, no fundo, só podemos amar aquilo que nos é inútil, pois quando algo é útil, nós usamos por convenção. Só amamos aquilo que, de certa maneira, podemos chamar de inútil...
— (...) Aaaahhhh, não me faça chorar assim... Isso é tão... Lindo...
— Não quis te fazer chorar! Te amo!!!
— Isso é tão comovente que vou me assumir agora, e quantas vezes forem necessárias!
— Obrigado! Isso é muito importante pra mim!
— Eu... Sou... É...
— Diga!!!
— Eu sou... ESCRITOR!!!
— Muito obrigado! Com você ao meu lado posso ser tudo o que cabe dentro dessa nossa cabeça fervilhante! E podemos interagir com infinitos personagens que criamos todos os dias! Na era dos YouTubers, assumir-se escritor é remar contra a maré, para, quem sabe, chegar no canal de acesso ao rio das ideias abertas! Lá seguiremos nosso fluxo! Jamais nos encerre em um rótulo! Cuide de todos nós, nobre escritor que vive em mim... Nenhuma de nossas partes quer imortalidade, ou qualquer um destes clichês que justificam “missionários das letras”! Queremos apenas gozar de cada instante de vida! Sigamos com nossa obra! Ela é aquilo que transforma nossa fida em obra de arte!
— Teu desejo é uma ordem, mestre! Você também: não se encerre em definições. Não abra mão da poesia musical em suas aulas como professor. Não deixe o ciclista em nós desanimar dos cuidados com nosso corpo e, não seja um tirano. Permita que possamos, vez ou outra sentar diante do sofá para ver uma série ou um filme. Vamos dedicar o maior tempo possível a rir com as crianças de quem somos responsáveis! Mas também não deixe de ler um livro trivial e engraçado de literatura barata, de ir aos jogos do Londrina e torcer, mesmo que não haja nada e nenhum blog para escrever! E o mais importante: que ninguém imponha qualquer identidade conclusiva a nós mesmos. Não somos uma multidão. Mas, tal qual as pessoas de Fernando Pessoa, existimos simultaneamente em um mesmo corpo e uma mesma mente! E como diria uma das pessoas do mestre/poeta citado, que ninguém nos venha com conclusões, pois “a única conclusão é morrer...”.



quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Londrinense Sem Sotaque!


Tem uma renca de londrinenses que pensam não teR [grifo pros nossos erres britânicos e/ou caipiras] sotaque! Afinal, somos uma cidade jovem, repleta de gente das mais diversas origens étnicas. Londrina tem uma séria crise de identidade: Não sabe se é a menor das cidades grandes ou a maior das pequenas. Mas nos sentimos multiétnicos. Somos o meio do caminho entre a maior capital do Sudeste e a maior do Sul. Nesta mistura de origens, eu, por exemplo, cresci ouvindo o italianesco vêneto no português falado por minha vó, Mafalda. Também estou habituado ao português amineirado do meu avô Miguel, além da fala de outros avôs e avós de amigos falando com português mais asiático, indígena, polonês...
Mas não é raro um londrinense desses vanguardistas dizer:
"Não temos sotaque! Falamos o português mais correto!"
E qual é o português mais correto, cara pálida?
"Aquele falado pelo William Bonner, oras..."
Uma pena eu não ter nem dez pila pra ir lá na cidade comprar uma sombrinha! Tá caindo o maior toró, e nem sair de casa eu posso, pois tem uma data vizinha aqui que é puro barro! E toda vez que cai um pé d'agua assim, o lamaçal vermelho chega até o meu meio fio... Mas, voltando ao raciocínio - se eu tivesse uns pilas a mais, iria de mala e cuia convidar o tal do Bonner pra um bate papo com a piazada daqui na cancha em frente de casa. Aposto que apareceria um lazarento oferecendo garapa do Marco Zero pro sujeito - que corria o risco de gorfar antes mesmo de provar dessa iguaria só de ouvir o nome. Acha que o caboclo sabe o que é garapa? Lá onde ele mora vendem biscoito globo e mate na praia. E o mate não é chimarrão não, é aquele chá tostado sem graça. Mas deve vender por que servem bem gelado, e lá lá faz um calor de rachar lajota! Detalhe que lá de onde ele vem, usam a palavra "biscoito" não só pros biscoitos (de polvilho), mas também pra todas as bolachas! Onde já se viu um negócio desses?
Tudo bem que aqui em Londrina também temos dias bem quentes, de ficar na varanda olhando o vento bater na quiçaça. Ainda mais quando cai a força e todos os aparelhos de ar condicionado deixam de funcionar...
Se o sujeito viesse mesmo, convidaria-o para posar aqui em casa. Já deixaria o banheiro limpinho. Vai que ele chega do Rio de Janeiro apurado? Capaz que vou deixar de lavar a patente com Qboa e colocar uma pedrinha sanitária ali pra receber visitas...
Quando ele pousar no aeroporto e vier pra cá pra posar, se preferir alugar um carro, terei que ensinar o caminho. Ele vem pela Santos Dumont e desce a JK. Mas não pode passar por cima do pontilhão, já tem que cair as direita pra pegar a Dez de Dezembro. Ali passam muitos bicicleteiros, vou falar pra ele podar eles com cuidado. Além do mais, tá cheio de pardal naquela avenida. Ir de manha no transito previne multas e, o mais importante, previne acidentes. Quando ele chegar no balão de Adão e Eva, já vai pirar vendo nosso "disco voador" de concreto e zinco - a rodoviária que o Niemeyer projetou, mas a prefeitura não teve culhão pra bancar o projeto original... Depois do balão acho melhor ele cair as direita, pra evitar o sinaleiro. Depois de passar pelo complexo Marco Zero e entrar na minha rua margeando a mata, aí é só parar antes do quebra-mola. Estarei ali, bem em frente a cancha! Não tem erro!
Precisarei alertá-lo que tem muito noiado aqui na vila, mas a maioria só anda trupicando ou morcegando nas esquinas. A turma passa por eles voltando do trampo e eles geralmente ficam de boa. Às vezes uns mais doidos fazem a gente rachar o bico quando levam um coco da molecada no futebol. Aí ficam putos gritando: "Tá me tirando, mano?". hahahaha
Tô olhando na folhinha aqui que dia é melhor ele vir pra cá. Vou até separar uma muda de roupa minha, pro caso de ele esquecer. A casa é de madeira, simples, mas bem pintadinha, não tem risco de pegar uma ferpa na mão quando se apoiar na parede. Talvez seja melhor colocá-lo lá na dependência da Vó Mafalda, que é de material. Ela adora preparar mistura diferente quando tem visitas. Só espero que ela não o assuste de noite com seu farolete, ao procurar alguma ramona de cabelo...
Mas vou parar de papo-furado! Tenho que lavar a louça e tirar o lixo antes que apareçam bigatos. Se isso acontecer minha mãe surta e me quebra na paulada! Sou meio jacu, mas não sou besta! Vou parar de ensebar aqui e correr pra pia. Se deixar meu serviço em ordem, talvez eu possa voltar e varar a madrugada trocando ideia com os piá...
Saudações londrinenses!




Compreender o Vento


Viver é esforço artístico de construção de si
E há um universo imenso dentro de cada um
Talvez a grande sacada seja compreender o vento
Observar, levantar as velas e seguir navegando
Com o coração atento, se saberá onde atirar a âncora
Mas sempre será necessário recomeçar.
E a vida segue o fluxo incessante do navegar/ancorar
Ambas decisões exigem coragem e perspicácia
Seja qual for o instante, é nele que a vida existe
Só no agora a vida acontece, então, sigamos!

"Quanta mudança alcança o nosso ser
Posso ser assim, daqui a pouco não"




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Céu Suburbano


Os construtores me vieram sem aviso
E destruíram frutos, flores, folhas, troncos
Construtores de ruínas sem sentido
Moto-serras e o terror daquele ronco

Do trabalho regressei sem despedir-me
Das sombras que há tempos houve aqui
Olhos d'agua, coração aguente firme
Menos verde ao meu redor, então sofri...

Mas encontro um outro verde rastejante
No contraste com o azul que tão venero
Suburbano céu de azul exuberante

Traz de volta o verdazul que tanto quero
Do contraste mata e céu, como era antes.
Zona leste, não te tornem um cemitério.

"Penny Lane [Fraternidade]
is in my ears and in my eyes
There beneath the blue suburban skies
I sit and meanwhile back.."
(The Beatles)



terça-feira, 29 de agosto de 2017

Amor na TV

Eu vou mandar a nossa história de amor pra Globo,
pra ver se vira novela, com cenas no Vídeo Show
Vou inscrever o nosso caso também no Sílvio,
mostrar pro seu auditório, que eu topo tudo por amor.
Vou telefonar, testemunhar nosso amor na Record
pra ver se vira milagre, na pregação do pastor.
Eu vou mandar os nossos lances também pra Band
pra ver se rola outra chance, Terceiro Tempo de amor.

A nossa história passando
Dentro da tua TV
Se preferires ficar sozinha
Mando tudo pra CNT!

Eu vou mandar a nossa história de amor pra Globo,
pra ver se rola reprise, comedia no Tá no ar
Vou inscrever o nosso caso também no Sílvio,
pra no baú da alegria, os nossos beijos guardar
Vou telefonar, testemunhar nosso amor na Record
pra exorcizar a distância que insiste em nos separar
Eu vou mandar nossos sabores também pra Band
pra ver se vira receita, um Master Cheff de amar.

A nossa história passando
Dentro da tua TV
Se preferires ficar sozinha
Mando tudo pra Rede TV!


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Dias secos e olhos úmidos

É tanto pó que me sinto Arturo Bandini, o autor de "O Cachorrinho Riu".
Logo eu, autor de muitas coisas e de coisa alguma...
Tanto pó na Pequena Londres deste inverno seco,
Que parece estar ao alcance das mãos, desenhando meus rastros!
"Pergunte ao pó por onde andei".
Talvez o pó dos caminhos por onde deixei pegadas
Ou até, mais ainda, meus rastros de pneu de bicicleta,
Falem mais de mim que estas poeirentas palavras...
O céu anuncia aos olhos o fim da estiagem,
Os olhos que, umedecidos, travaram dura guerra contra a secura dos dias.
O cheiro de chuva que me chega às narinas anuncia a água do céu.
As narinas que se defenderam do pó com coriza,
que se escorria nojenta em meu bigode e barba.
O vento que sopra no rosto, agora sem barba,
Traz o toque fresco a uma pele que se escondeu como pôde da secura.
O deserto invernal finalmente vai-se embora...
Os ouvidos escutam tal qual um rock progressivo o som de um trovão!
Bendito deserto freezer!
Que me faz cultuar agora a chuva como um milagre!
Bendita chuva que chega, neste baixo inverno,
Para começar a preparar os caminhos floridos da primavera!
Não me sinto mais o trágico escritor da poeirenta Los Angeles dos anos 1930!
Sou agora eu mesmo!
Ainda que não saiba ao certo o que ou quem sou eu agora!
Será que importa mesmo saber?
Não sei...
Só sei que a chuva que sinto caindo devagar em minha pele
Muda a estação de meus sentidos!
Já não é mais tempo de me desaprender!
Já não é mais tempo de me deixar de fora, nas margens de mim.
É tempo de me apreender!
É tempo de ser Jeferson Sabran, autor da obra mais legal
Só por ser legal pra mim, que a construo e acompanho como primeiro leitor...
Sou agora um trágico autor de mim mesmo.
Autor sem rastros de pó, mas cheio de respingos d'água,
Que rapidamente se dissolvem e se devolvem ao cosmos
Pela força da energia dos raios de sol que enchem de vida
O cenário que se enxerga daqui da linha tropical do Sul do Mundo.
Mas não agora!
Pois agora chove!
Agora não há mais rastros de pó,
Apenas água que escorre e flui
Assim como eu, que já não sou mais o autor do primeiro verso.
E que não serei mais o autor deste poema sem rima, assim que escrever o ponto final.



terça-feira, 8 de agosto de 2017

Luar de oito

Oito do oito
E eu afoito
De pé o infinito
Entalado grito
Viva a lembrança
E a alma dança
Na lua cheia
Olhar vagueia
E o oito ainda é
O infinito em pé.

sábado, 22 de julho de 2017

A pé, longe da "Cidade Digital"

        Parou e ateve-se ao cansaço que sentia. E não é que já não estivesse parada. Estava, embora movesse os dedos deslizando para cima o “feed de notícias”. Sempre mais do mesmo: esportivos, zoeiros, animaizinhos fofinhos, religiosos e seus contrários (uma minoria de ateus chatos e um tanto maior de cristãos chatos), famílias felizes, indivíduos revoltados, meteorologistas (aqueles que quase morrem de frio ou de calor, dependendo da estação do ano), musicas ruins, um pouco de musica boa, filósofos da moda em vídeo, dicas de coisas práticas e fáceis de fazer, militantes de política...
        Os piores para ela eram os últimos! Sempre haveria um espertão para dizer que “em tudo fazemos política”. Sendo assim, ela preferia fazer sua própria política da poesia e da boa música! Sem que fosse trancada em qualquer sistema de ideologia. A única concessão que fazia à palavra “ideologia” era à voz de Cazuza.
        E foi justamente a sua paixão pelo Rock Nacional que a tinha deixado do jeito que a encontramos ali no primeiro parágrafo: cansada. Quando parou de olhar aquele “museu de grandes novidades” nas notícias da rede social, lembrou do “Dia Mundial do Rock”. Para ela todo dia era de rock. Mas com a hashtag bombando, achou que, ainda mais que os outros, tinha direito de publicar uma música também.
Ouvia Legião Urbana, terminando o disco “Dois”. Procurou no YouTube um vídeo com a música “índios” e publicou na rede social. Não demorou para aparecer alguém comentando: “graças ao mimimi esquerdista mortadela de gente como esse Renato Russo , blá-blá-blá de índio, de gays, difamação dos militares e outras baboseiras que o país virou essa merda!”. Teve vontade de estar diante da pessoa para dizer bem alto um palavrão! Depois se acalmou e pensou que se estivesse diante da pessoa, perguntaria: "você prestou atenção no solo de violão desta versão acústica da música?" No fim não quis estar diante daquela pessoa. Quem faz um comentário desses não teria ouvidos para qualquer argumento contrário. Como não queria discussão, e como existem tantas outras canções de Rock no mundo, simplesmente apagou aquela e escolheu outra.
Enquanto pensava em algo mais tranquilo que Legião Urbana para postar, digitou quase que naturalmente “Nando Reis”. Apareceu uma música recente, que ainda não conhecia: “Só Posso Dizer”. Achou a música linda. Quem poderia reclamar daquela canção de amor? Postou. Três pessoas logo curtiram! Ufa... Sem brigas agora. Foi então apareceu um comentário: “Saudades daquele Nando dos Titãs, engajado, tocando baixo, fazendo rock de verdade... Na situação que vive o país o cara fica ainda fazendo essas musiquinhas de amor. Em que planeta ele vive?”. Nem quis perder tempo pensando no comentário. Apagou a postagem.
Começou a ficar enjoada! Só queria celebrar o dia do rock com um rock. Mas sem discutir com ninguém. Lembrou do Oficina G3, Rock pesado e com letras sobre Deus. Quem poderia ir ali falar mal de Deus? Escolheu uma música das antigas e postou. Veio então o primeiro comentário: “Oficina G3 é uma benção. Se aproxima perigosamente de coisas do demônio para resgatar os mais perdidos no mundo. São verdadeiros anjos, principalmente para esses roqueiros drogados que andam por aí.”. Ficou ofendida com a associação do Rock com “coisas do demônio”, mas, pelo menos, dessa vez não havia crítica à musica e à banda. Foi aí que alguém respondeu ao primeiro comentário: “vocês fanáticos são responsáveis pela morte de milhares de pessoas que sofrem com sua pregação de ódio. Se dizem membros da religião do amor, mas vivem atacando todos os que não seguem suas regras idiotias”. O que? Guerra Santa seria demais para ela. Apagou.
Sentia-se inútil. Seria possível apenas fazer uma homenagem ao seu ritmo musical preferido sem que alguém se inflamasse em fúria? Seu sentimento de inutilidade levou inevitavelmente a procurar a música “inútil” do Ultraje a Rigor. Escreveu na descrição antes de postar: “Espero que não me apareça nenhum inútil reclamando dessa música. #DiaMundialDoRock”.  Nessa veio o comentário mais rápido: “Inútil define bem esse reacionário coxinha, sempre militando contra os pobres. O discursinho babaca dele ajudou a colocar os corruptos que aí estão no poder.”. Chega! O que a opinião do cara tinha a ver com essa música? Talvez o problema seja o Rock Nacional. Pessoas muito inflamadas com a política local.
Decidiu então fazer uma última tentativa. Agora apelaria para The Beatles. Procurou “Don't Let Me Down”, tocada em cima de um prédio. Escreveu apenas a hashtag e postou. Muitas pessoas curtiram. Alguns comentaram coisas do tipo “Um clássico – viva o rock”. Parecia ter acertado a mão desta vez. Foi preparar um chá enquanto ouvia o disco Gita, do Raul Seixas. Riu ao ouvir "As aventuras de Raul Seixas na Cidade de Thor" e lembrar de suas aventuras na "cidade digital".
Depois de um tempo ouviu o som de um novo comentário: "Não foi por acaso que esse Lennon Morreu. Deus o castigou por ter dito que essa bandinha era maior que Jesus. Teve o fim que mereceu, ele e essa bandinha”. Raul cantava ao fundo "Viva a Sociedade Alternativa". Escolheu então ignorar. Viveu aquele dia do Rock ouvindo rock. 
Agora, dias depois, passando por mais do mesmo na "cidade digital" lembrou daquele fatídico Dia Mundial do Rock. Como já sabemos, sentiu-se cansada. Cansada que estava, levantou-se e decidiu descer as escadas e se atirar na rua. E caminhando a pé encontrou um vizinho que disse "que governo safado, já aumentaram o preço da gasolina!". Fez uma careta para contenta-lo, acenou despedindo-se e seguiu... A pé, sem se importar com a gasolina. Sorrindo, sem se importar com o frio que fazia...