sábado, 22 de fevereiro de 2020

O Estranho Cigarro Fino de Malena

         Certamente você já viu Malena por aí! E não é que ela goste muito de aparecer, mas, não obstante seu recato, é impossível que ela passe despercebida. A sua beleza tem um brilho tão intenso, que, por vezes, quase me esqueço que não estou olhando para a tela de uma televisão de altíssima qualidade em dia de transmissão do tapete vermelho do Óscar.  É tanta luz emanando daquela pessoa, que quase me esqueço que ela é uma senhora do lar a caminho da feira para comprar verduras frescas a serem usadas no almoço.
Não se engane, Malena não cozinha, embora tenha habilidade neste ofício. Seu marido mantém uma empregada doméstica, responsável pelos cuidados de sua enorme casa e das refeições da família. Mas Malena, a gentil Malena, faz questão de escolher pessoalmente os ingredientes para o almoço. E ela leva muito à sério, quase eleva ao nível de sacralidade a arte de escolher verduras. É ali que se manifesta todo o esplendor daquela mulher que, para justificar seu papel no mundo, tem que ser sempre, bela, do lar e recatada.
Malena acena para os conhecidos na feira, conversa com o seu Kinjon Humos sobre a qualidade das folhas disponíveis naquele dia. Para na banca do pastel, onde suas amigas Lourdes e Augusta já estão lhe esperando para botar a tradicional conversa da feira em dia:
— Menina, você viu o Fernandinho, filho da Katia?
— Que dó, não é? Apareceu todo pintado de tatuagem na igreja no domingo!
— Se a Katia não botar um limite nesse rapaz, logo ele estará fumando droga por aí...
Então as três concordam:
— “Deus o livre...”.
Como agradecimento por sua atenção até aqui, vou lhe poupar dos outros assuntos, tão desinteressantes quanto as tatuagens do filho da Katia. Espero que não tenhas herdado desta narrativa antipatia de nenhuma espécie pela minha musa, Malena. Embora essa conversa que estou omitindo seja, de fato, extremamente maçante, gostaria de colar aqui com precisão cirúrgica a personagem poética que é Malena em cada um dos seus movimentos. Apesar de, às vezes, ficar falando mal dos outros, ela preserva essa luz radiante. E eu, pobre mortal de luz opaca, contentei-me por anos com o benefício de vislumbrar esta luz. Mas então tornei-me adulto no dia em que ela virou toda sua luz na minha direção e percebeu-se observada! Sorriu, piscou os olhos e fez um biquinho como quem me mandasse um beijo. Esfreguei os olhos, olhei ao redor para ver se não era o marido dela ou outra pessoa perto de mim quem recebia aqueles gestos sublimes. Não havia ninguém ao meu redor. Mas quando olhei em sua direção, lá estava ela com a Lourdes e a Augusta colocando a fofoca em dia. 
        Foi um delírio. Sim, eu tinha certeza que era um delírio. Enquanto tratava de me acertar com as minhas alucinações, uma voz atrás de mim falou:
— Tem fogo, Kaderbeck?
Ela sabia meu nome! ELA SABE MEU NOME!!! Não, meu nome não é “Kaderbeck”. Nem Malena se chama Malena, são nomes fictícios, embora as pessoas por trás dos nomes, garanto serem reais. Mas preciso proteger Malena. O que vem a seguir é um segredo que, estou convencido, não pretendo colar na límpida imagem por traz desta beldade que, aqui, chamo de Malena. Ela então prosseguiu:
— Você fuma, não é? Sempre vejo seu pai fumando aí na frente, você deve fumar também, não é? E aí, tem fogo?
— Claro!!! Preciso pegar ali em casa.
Eu morava na rua da feira. E era da calçada ao lado de casa que passei a observar aquela distinta moradora da rua de cima. Ela “Morava na esquina, ao lado do portão de entrada do parque da quadra” onde eu jogava bola com meus amigos. Mas eu gostava mesmo é de observa-la descer a rua para a feira do meu quintal. O seu Kimjon Humos tinha um acordo com meu pai para estacionar a sua Kombi de verduras bem ali, em cima da nossa calçada. Naquele dia, as suas caixas de madeira empilhadas me roubaram toda a visão da feira. Mas agora Malena me pedia fogo e, sem ser convidada, me seguiu por traz da Kombi e das caixas até a minha casa. Meus pais trabalhavam, então, peguei o isqueiro do meu pai e, fingindo que era meu, enfiei seu maço de cigarro paraguaio no bolso.
— Aqui o fogo! Soltou algum fio da roupa, dona Malena? Precisa cauterizar o tecido?
— Dona Malena, piá? Me poupe! Preciso do seu fogo para me acender!
Ela pronunciou isso de maneira tão sensual, que voltei a questionar se estava delirando. A coroa dos meus sonhos estava ali, na sala de minha casa, sozinha comigo.
— O fogo é pra me acender esse cigarro!
Tirou da bolsa um pedaço de papel alumínio, de onde desembrulhou um tipo de cigarro bem mais fino que os do meu pai. Então ela me deu e falou:
— Acende! Dá o primeiro trago!
Nem de cigarro eu gostava. Sempre fugi da fumaça fedorenta que meu pai produz. Mas não podia negar. Eu suportaria todo o odor do mundo em homenagem ao brilho daquela mulher. É claro que eu ascendi o seu estranho cigarro e dei o primeiro trago. Tossi um pouco. Ela riu. Para a minha enorme surpresa, aquela fumaça não era tão desagradável quanto a do meu pai! Seria algum tipo de cigarro importado de um lugar muito distante do Paraguai? Então ela pegou o cigarro e, na cena mais improvável que poderia imaginar, tragou profundamente, com estilo e habilidade de quem faz isso há muito tempo. Tive uma vontade incontrolável de rir. O corpo de Malena parecia agora envolto por uma onda, como uma miragem. Sua camisa social branca com um laço de fita preto parecia se desabotoar. Ri compulsivamente ao ver a saia longa marrom de Malena ir ao chão. Diante dos meus olhos um corpo escultural completamente nu se materializou. Mas, naquela altura, eu já tinha certeza que era delírio. Até as paredes da sala oscilavam. E eu ria de uma alegria que não sabia de onde vinha. Estaria ficando doente ou louco? Malena pediu para eu segurar seu cigarro e puxou minha camiseta. Aproveitei para dar outro trago. Então ela desabotoou minha calça e eu, já certo de que se tratava de um sonho, deixei o sonho conduzir-se por si só a partir de então...
Poupo-os agora dos detalhes deste momento delirante. Só para equilibrar a história, já que eu tinha lhe poupado de um trecho extremamente chato, agora deixo por conta de vossa imaginação o ápice desse enredo.
Naquele dia não realizei nenhuma das tarefas diárias delegadas por meus pais. Quando meu pai chegou, me viu dormindo nu no sofá com seu isqueiro e maço de cigarros no chão. Enquanto ele tentava em vão me interrogar e esbravejava por ter visto aquela “visão do capeta”, palavras dele, eu pensava se minha mente era tão criativa a ponto de ter construído todo esse cenário sozinha. Conclui que sim, que tinha vivido uma manhã de loucura, por conta da devoção de toda uma adolescência pela figura de Malena.
Na outra semana reiniciei a observação da feira a espera de Malena. Ela nem me viu, como sempre. Encontrou-se com Lourdes e Augusta, como sempre. Despediu-se delas e, quando parecia se dirigir para sua casa, na rua de cima, virou-se para o meu lado, caminhou decidida e sensual até parar diante de mim e perguntar:
— E aí? Ainda tem fogo?


*Este conto é uma livre interpretação minha da música "Malena", de Tonho Costa, disponível no Spotfy, Apple Music e YouTube.


quarta-feira, 25 de julho de 2018

Sou Escritor, Tia Mônica! Obrigado!


       Minha mãe já vinha me preparando há séculos para um desafio inadiável, irremediável e inegociável! Se uso hoje a palavra “séculos”, é porque aos seis anos incompletos, o tempo era difícil de ser valorado. Pois bem, completei seis anos na segunda metade de dezembro (como já me é habitual desde o mais profundo que alcanço em minha memória) e, logo que a escola primária voltou a funcionar, em janeiro, minha mãe foi lá me matricular no pré. Todos concordavam que era necessário fazer o pré para chegar no primeiro ano já alfabetizado. Consigo até imaginar a secretária dizendo a ela: “então, mãe, eu sei que seu filho acabou de completar seis anos, mas ele fará sete ainda este ano. Ele não pode ser matriculado no pré, terá que ir direto ao primeiro ano.”
        E lá fui, com uma mochilinha onde havia caderno e lápis, mais uma lancheira, com um copo de suco (daqueles artificiais “de dez centavos”, que rendia dois litros com dez gramas de “pó radioativo”) e um sanduíche. Eu que nunca (NUNCA MESMO) atendi aos apelos argumentativos de que “homem não chora”, chorei litros de lágrimas quando vi minha mãe indo embora sem me levar consigo. Ao me sentar, precisava de um espaço para debruçar a cabeça e tentar controlar o choro, mas a mochila e a lancheira atrapalhavam. Então notei um buraco embaixo da mesinha, e ali coloquei minhas coisas para poder chorar em paz. Choro controlado, apresentações feitas, fui percebendo que nem era tão ruim assim aquele lugar. Mas quando bateu o sinal do recreio, um piá passou correndo, esbarrou na minha mesa e meu copo de suco radioativo se espalhou pelo chão de sala. FOI HORRÍVEL! Mas a “tia” me acalmou, disse para eu não me preocupar. Quem era aquela “tia” tão legal? Sei que há quem não goste do termo “tia”, mas, para crianças que vivem ouvindo para não falar com estranhos, parece um recurso interessante o uso de “tia” nas escolas primárias.
        Antes de ingressar na escola, o mundo se desenrolava em grandes histórias com meu irmão e minhas primas gêmeas. A Vó Mafalda oferecia o figurino para as nossas histórias. Ela própria nos enchia a imaginação contando histórias do sítio onde cresceu, entre outras que leu ou ouviu. Eu e meu irmão tínhamos uma “máquina do tempo”, que era ativada pela cordinha da descarga do banheiro (foi mal mãe, se a conta de água vinha cara, acho que era culpa dessas nossas aventuras quando tu saias para trabalhar). Quando eu e o Emerson nos desentendíamos, e ele deixava de ser o irmão mais novo legal de sempre, só havia uma explicação. Aquele vilão que tomara o seu lugar não era ele, era o Maicon (sei lá de onde tirei esse nome, mas era o que usava para aquele “vilão imaginário”). Enfim... Havia literatura na minha fase pré-escrita. Teatro, contos, crônicas... Tudo no universo da imaginação, fosse compartilhado ou individual.
        Voltando a tia Mônica. A simpatia por ela do primeiro dia se desfez quando, logo na primeira semana, ela me incluiu na “sala de reforço no contra-turno”. Tinha que frequentar a escola de manhã para aprender a fazer continhas e, principalmente, aprender a escrever. Primeiro acharam que o problema era eu só conseguir escrever com a “mão errada”. Mas não havia o que fazer. Se a mão esquerda só desenhava letras terríveis, a mão direita mal conseguia segurar o lápis. Mas, séculos depois (talvez dois meses), a Tia Mônica suspendeu a determinação de que eu frequentasse o reforço no contra-turno. Finalmente conseguia escrever de uma maneira minimamente inteligível.
        Mas as letras que todos nós sabíamos fazer era “letra de forma”, que chamamos hoje de “caixa alta”. Então, em um dia de recreio, tomando meu suco radioativo e tentando me esquivar da tia da merenda que queria me forçar a comer polenta, ouvi uma conversa da piazada da minha sala: “olha lá a Keila, do pré! Sabia que ela sabe fazer letra de mão?”. Não lembro nada da fisionomia da Keila, mas posso garantir que ela foi a primeira guria que me impressionou nesta vida. Ela era do pré e sabia fazer letra "de mão" (cursiva)!!! A Keila era a inspiração para aquele semestre. Eu deveria aprimorar a minha escrita. Talvez, um dia, poderia escrever algo para ela, “para Keila”, “de Jeferson”. Mas, que bobagem... Eu não era o aluno da turma do reforço? Era melhor esquecer a ideia.
        Então, antes das férias de inverno, em uma fresca tarde londrinense, a professora resolveu nos levar em uma praça perto da escola. A atividade era simples: observar tudo ao redor e anotar coisas que era possível observar ali, da praça. Anotei. Depois ela fez algumas brincadeiras lúdicas e voltamos para a escola. Então veio a tarefa para casa: escrever uma história usando todas as palavras que anotamos na praça. Escrevi e entreguei na aula seguinte. A tia Mônica então anunciou que premiaria a melhor redação da sala. Claro que isso não era coisa para mim, o aluno canhoteiro de letra feia que, até bem pouco tempo, frequentava a sala de reforço. Nem pensei nisso. No dia seguinte ela chegou com uma espécie de diploma impresso. “O melhor escritor da sala”. Ganhei. Sinceramente, embora eu desfrute de uma memória boa, não tenho a menor ideia do que foi que escrevi. Mas lembro que meu pai foi contratado para pintar a escola nas férias, e um dia ele chegou em casa dizendo que a professora tinha pedido para ficar com minha redação. Pediu autorização para publicá-la em algum lugar. Vieram outras redações e muitos outros elogios. Foi inesquecível uma reunião de pais em que a tia Mônica chamou minha mãe de lado e disse:  “ele é um gênio! Um gênio...”.
        Desde então, já fui “devorador de livros” da biblioteca do Colégio Champagnat (como me chamava a bibliotecária – que se viu obrigada a liberar empréstimo de “livros do ensino médio” quando, ainda no sétimo ano, já tinha lido todos os da série vaga-lume disponíveis ali). Então me tornei “pacoteiro do viscardi”, para ajudar minha mãe em casa (e poder tomar tubaína uma vez ou outra no lugar do “suco radioativo”). Depois aprendi a pedalar e virei ciclista. Aprendi a tocar violão e contrabaixo elétrico e virei músico. Me apaixonei, tropecei nas palavras faladas, mas arranquei suspiros da musa escrevendo cartas, poemas e músicas. Fui ator e roteirista em peça de teatro. Fiz um curso técnico para ser corretor de imóveis, mas acabei preferindo virar professor... São tantos os adjetivos... Raramente me prendo a algum deles, já que prefiro viver como quem constrói o próprio enredo, ou, como diria Nietzsche, uma “vida como obra de arte”.
        Recentemente, ao me desiludir com um projeto coletivo de música, no qual investi tempo e dinheiro, mas que acabou prosseguindo sem mim, resolvi me aproximar da música de uma maneira mais íntima, individual. Procurei então um ser humano que é referencia para mim como artista (no sentido amplo e trágico da palavra) – o mestre Tonho Costa. Além de ter tocado com meu pai logo no início de sua carreira, ele é ator (vi ele há pouco na TV em uma propaganda de curso de inglês), escreve canções com letras que são poemas de primeiríssima qualidade, faz trilha sonora de peças de teatro e toca o violão mais bem tocado dessa terra de chão vermelho.
        Pois foi em um dia de lições com o mestre que ele me perguntou, seco e sem brecha para abstrações: “O que você é?”! A pergunta me assustou. Refleti sobre tudo o que já fui e lembrei: quando me chamaram para atuar, persuadi a todos que eu também deveria roteirizar a peça. Quando me chamaram para tocar, propus que eu deveria escrever as letras. Quando me formei professor, especialista e mestre, o fiz escrevendo. Quando o mundo transbordou dentro de mim em paixões, dores e amores, traduzi tudo em poemas nos cadernos e blogs da vida. Não sei o que sou, é verdade. Mas naquela questão direta do mestre, era preciso “escolher uma camisa para jogar”. E, como quem joga futebol precisa definir se marca ou finaliza melhor; se defende com as mãos ou arma melhor a jogada; estava eu ali diante de uma escolha. A minha resposta seria muito mais para mim que para ele. Nortearia minhas estratégias para além daquela lição. Então eu disse ao mestre devagar e certo (como várias vezes já o fiz pegando a camisa nove e dizendo “só sei fazer gol, nada mais”): EU SOU ESCRITOR!
Ontem recebi um e-mail vindo do outro lado do Atlântico. Como dica da minha amiga Cinthia (que está a perambular pelos mares do outro lado do mundo), submeti um texto e dois poemas meus para o projeto de uma editora portuguesa que lançará uma antologia sobre o amor. O regulamento previa a inscrição de um texto ou até três poemas. Subverti as regras e enviei um texto, mais dois poemas. Expliquei no e-mail que os poemas estavam ali para o caso de o texto não ser selecionado. Era a minha “segunda chance”. Os portugueses não vão aceitar textos de um brasileiro que subverteu as regras, vão? Aceitaram os três!
        É verdade que meu nome já aparece em publicações de cunho acadêmico. Mas para mim isso é como fazer gol de pênalti. Vale, claro que vale. Mas não mostra toda a construção criativa da jogada. Depois de anos escrevendo poemas, contos, crônicas e filosofias em blogs, terei minha estreia impressa! E, que ironia, uma estreia internacional!
        Ainda tenho romance (s) incompleto (s) em gestação, que, segundo o Mestre Tonho, poderá me trazer satisfação semelhante à dele ao lançar seu primeiro disco “Universo Quintal”. Minha estreia como romancista ainda é projeto. Mas, com o aceite da editora europeia para publicar (ao lado de minha amiga Cinthia), neste “Dia Nacional do Escritor”, quero agradecer a Tia Mônica que, desde que anotei as minhas primeiras palavras dentro de um enredo, percebeu que: Eu sou escritor! Obrigado, Tia Mônica, onde quer que esteja. (foi professora da Escola Estadual Arthur Thomas, em Londrina, na vila Brasil, no início dos anos 1990).

#DiaNacionalDoEscritor



sexta-feira, 20 de julho de 2018

Amizade Estelar (Nietzsche)


Nós éramos amigos e nos tornamos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois navios que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa, como já fizemos – e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol. Parecendo haver chegado ao seu destino e ter tido um só destino. Mas, então, a todo-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo – ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para o outro é da lei acima de nós: justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos – elevemo-nos a esse pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido dessa elevada possibilidade. – E assim crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos de ser inimigos na Terra. (Friedrich Nietzsche - Aforismo 279, A Gaia Ciência)

Foto: Cinthia Gonçales Da Silva





sábado, 7 de julho de 2018

Doze Horas Piscantes


         Acordei com o corpo todo molhado de suor, assustado e muito ofegante. Embora sentisse a umidade intensa na pele e a respiração acelerada, não conseguia ainda enxergar direito. Não sabia onde estava, não sabia quando, nem quanto tinha dormido. No fundo, não sabia nem o que eu era! Aos poucos meus olhos conseguiram se fixar num ponto de onde uma luz piscava. A luz era fraca, e possuía um formato estranho, que apagava e ascendia. Seria um código? Era! Eram números:
12:00
“Doze horas”, pensei... O que quer dizer isso? Fui então tomando consciência do tempo, das horas e dos relógios. Não sei quanto tempo levei nessa reflexão, mas estou certo que se passou bem mais que um minuto. Talvez dez, quinze, meia hora... Mesmo assim o relógio insistia em piscar na meia-noite! Ou seria meio-dia?
Ergui então a cabeça até uma janela pouco acima de mim, do meu lado esquerdo. Não era nem noite e nem dia! A luz de fora era fraca, uma penumbra daquelas que se vê pouco antes do Sol inaugurar os dias, ou pouco depois do final da tarde quando a estrela escapa de nossas vistas. Então não podia ser nem meio-dia, nem meia-noite! Poderia ser seis horas! Da manhã ou da tarde? Não sabia.
Começaram então a me ocorrer pensamentos ancestrais! Há quantos séculos haviam animais que, vez ou outra, sentiam o que eu sentia naquele momento? O suor no corpo, o despertar assustado, a respiração ofegante... Isso parecia ser algo tão antigo quanto o Sol e a Lua. Seriam o Sol e a Lua mesmo tão antigos? Ou seriam fenômenos recentes? Não sabia!
Comecei a suspeitar que aquela luz piscando na minha frente não era algo ancestral! Luzes ancestrais, fótons de luz, átomos de Hélio se intensificavam aos poucos do lado de fora da janela. Era, portanto uma manhã! Quantas manhãs já haviam brilhado no mundo daquela maneira? Quantas vezes estas manhãs foram percebidas por animais de corpos suados, ofegantes e assustados? Não sabia!
Mas aquela luz... Doze horas... Talvez já se passara mais de uma hora desde que notei a presença daquela luz piscante! Mesmo assim, o tempo não passava ali! Piscava eternamente e ininterruptamente “12:00”! Vídeo Cassete!!! Sim, aquela era a luz de uma das maravilhas recentes! O vídeo cassete! Como era o mundo antes do vídeo cassete? Para ver uma história se desenrolar dramaticamente, era preciso ter uma boa roupa, uma boa companhia, dinheiro para se locomover e pagar pelo acesso às cadeiras de onde se via o palco! Não, eu sou um solitário, um desafortunado. Não tenho condições para ir ao teatro. Cinema é uma maravilha moderna, mas também é muito caro! Graças ao crediário que consegui fazer lá na loja do centro, pude trazer para casa essa maravilha! Agora era só pegar a bicicleta, ir na locadora e escolher filmes para ver. Mas não podiam ser mais que dois. Ficaria muito caro. Lançamentos então, nem pensar... Não tinha problema. No catálogo de filmes chamados já de “antigos”, eu não tinha visto nenhum! Gastaria uma vida vendo-os! O dono da locadora me deixava levar dois filmes do catálogo pelo preço de um, desde que eu os pegasse à noite e devolvesse no outro dia antes das nove. Se atrasasse, ele cobraria os dois! Foi isso o que aconteceu!!!
Cheguei em casa e gozei do privilégio de viver nessa época tão bem aparelhada! Nenhum dos reis gregos, romanos, germânicos, britânicos, luso-brasileiros... Nenhum ser humano de até pouquíssimo tempo atrás pode desfrutar dessa maravilha! Eu sim! Era mais privilegiado que qualquer privilegiado nobre de outrora... Cheguei em casa e assisti uma história incrível! Era sobre um arqueólogo que vivia muitas aventuras em busca de relíquias históricas! Indiana Jones! Que filme!!! Depois, assisti a um em que um jovem viajava para o passado com ajuda de um carro construído por um cientista! Ele foi lá pras antigas, pra época do rock primitivo! O filme é empolgante! Mas não consigo lembrar do desfecho... O que acontecia mesmo? O Sol já começava a arder nas minhas pernas deitadas no colchão atirado no chão da sala. “12:00”, piscava o relógio na minha frente! Espera aí... Que horas são, de verdade??? Preciso devolver os filmes! Mas preciso rebobinar a fita também! Era outra cláusula do seu Germano, dono da locadora! Entregar no prazo, com as fitas rebobinadas, ou pagar mais dois dinheiros! Eu não tinha mais dois dinheiros...
Liguei o vídeo cassete e coloquei a fita para voltar! Onde está meu relógio? Achei! O que? Doze horas? O relógio tinha parado! Meio-dia ou meia-noite? Não sei!!!! Já disse que NÃO SEI!!! Liguei um velho walk man de onde ouvia fitas de rock e jogos de futebol. Mudei da posição “tape” para a posição “radio”. Tirei da posição “AM” e coloquei na “FM”. Coloquei naquela rádio que anuncia as horas ao final de cada música. Estava com sorte, era o final da música e a fita estava quase toda rebobinada. Restava saber se estava com as horas também ao meu favor. O locutor diz: “no ponto do relógio, 7:57”. Ufa! Tomaria café tranquilamente ainda antes de sair para devolver as fitas. Durante a semana batalharia para conseguir mais dois dinheiros! Teria que pegar novamente o “De volta para o futuro”. Pegaria também a continuação, e, dessa vez, não dormiria antes do fim! Ah, como é bom viver hoje e ser um privilegiado! Preciso desfrutar de toda esta inovação, nunca antes vista ou imaginada!



domingo, 22 de abril de 2018

Tenho Uma Estrela


Tenho uma estrela!
Todos os dias gosto de abrir a porta e encara-la de frente. Mas tem que ser assim, no momento em que ela acorda.
É o suficiente.
Depois disso o brilho dela é tão intenso, que continuo em contato com ela, mas aí é por tato, paladar, olfato, audição...
Quem nunca ouviu o vento solar?
Quem nunca provou o sabor de sol em uma maçã cultivava e amadurecida por ele?
Quem nunca respirou do ar que se mantém gasoso por conta da energia que vem dele?
Tem cheiro de sol o ar.
Tem gosto de sol a água...
Mas esta é a minha estrela.
Ela garante a vida na minha Terra.
É verdade que inventaram papéis e cercas pra que as terras pareçam ser de alguns poucos bichos semelhantes à nós.
Mas pergunte às formigas, aos ratos, aos mosquitos se eles notam as fronteiras de propriedade.
Questione os pássaros que migram se notam as fronteiras nacionais.
Você não vai entendê-los - pois sua linguagem é de escravidão. Você é tão gado quanto bois, ovelhas, cavalos...
Crê em fronteiras abstratas e bandeiras que te definam pelas cores de uma nobreza que nunca sentiste...
E eu?
Eu não - eu tenho uma estrela - e isso me basta.
Sua convicção de gado quererá me colocar em um desafio simples:
"Se és tão poderoso, vai lá naquele campo verde que está além daqueles seguranças armados".
Sabendo que tu és apenas gado, nem te vou ouvir - o som do vento é bem mais interessante.
Se porventura insistires em seus mitos e se aproximar aos berros dizendo que eu deva ir neste ou naquele lugar, ou ter esta ou aquela invenção humana pra ser feliz...
Com muita calma te farei apenas um pedido - que saia da frente do meu sol!

* Inspirado em anedota do filósofo grego Diógenes de Sinope e publicado originalmente no Facebook em 22/04/2016.



Uma Alegoria do Abuso

          Imagine que um líder comunitário (um sacerdote de alguma religião) se compadeça de uma família pobre que passava e, atrasado para os seus compromissos, deixa dinheiro com um jovem membro da comunidade pedindo a ele que vá até uma pizzaria para comprar-lhes uma pizza grande. O jovem pega o dinheiro e vai. Ao retirar a pizza no balcão, o cheiro está maravilhoso. Então ele, que passou o dia todo em serviços voluntários, pensa que não seria errado comer um pedaço da pizza. Abre a embalagem e devora o pedaço com gosto. No caminho, pensa que a mãe, o pai e a irmã mais nova tinham que provar daquela pizza. Então ele desvia o caminho, passa em sua casa e tira três pedaços da embalagem de pizza. Pensa melhor e resolve que comerá mais um. São cinco os pedaços subtraídos da pizza destinada à família pobre, formada pelo casal e duas crianças. Ele pensa que, para quem está com fome, um pedaço de pizza para cada adulto e meio pedaço para cada criança é mais do que justo. Ainda mais assim, de graça, inesperado...
         O jovem entrega a embalagem com os três pedaços de pizza e a família, alheia à missão confiada por outrem ao jovem, agradece-o efusivamente. Ele sai satisfeito com a gratidão da família e, ao virar-se, vê os pais dando um pedaço para cada criança e, cada qual abrindo mão de seu pedaço em prol do outro. Ele não espera o desfecho e sai apressado sem querer pensar na cena que viu...
         Eu, autor, bem que poderia dar um desfecho trágico a este canalha! Pensei em narrar sua ida até em casa e, percebendo que ninguém notara os pedaços de pizza, comeria tudo sozinho e morreria engasgado! Poderia dar um desfecho moral, fazendo sua consciência de culpa aflorar até fazer ele enlouquecer ou, melhor, reparar seu ato prestando alguma caridade ainda maior que a do sacerdote àquela família. Poderia também dar um desfecho de indiferença, comum aos espíritos mais canalhas que vagam por aí... Não darei desfecho nenhum! Aliás, tu tens minha autorização para fazer o que bem entender deste personagem abusador!
       De minha parte, o interesse é apenas relatar uma situação de abuso! O jovem abusou da boa vontade e da confiança do sacerdote. Abusou da tutela do dinheiro alheio e descumpriu a missão que lhe fora delegada. Contou com a ignorância dos destinatários da benfeitoria e a sensação de impunidade pela tomada de sua decisão. Assim agem os abusadores. Logo que se deparam com uma situação de poder e de controle dos eventos, vão além daquilo que era necessário e cometem um abuso.
Se os praticantes de abusos se sentem culpados ou não; se estão condenados ou praticando ouros abusos; se tiram alguma lição que cesse ou aumente sua tendência à esta prática, não sei. O que sei é que as ações abusivas andam à solta por aí. E nem os maiores canalhas abusadores estão imunes à onda de gestos abusivos! Tomas Hobbes sorri no túmulo! Sua voz se faz ecoar séculos depois com ainda mais nitidez e gravidade: “O Homem é o Lobo do Homem”.  





sábado, 21 de abril de 2018

Maldito Vírus


Maldito seja o vírus
que deixou-me  três dias
sem abraço!
Maldita febre alta
Depois de tanto cuidado,
meu fracasso...
Gripe na pequena pegou
E deste meu fracasso
Só restou
Consolar-me no abraço
que faltou,
Lembrar o chimarrão
que se evitou...


terça-feira, 17 de abril de 2018

Reticência de aprendiz

Reticente, nunca minto...
Se faltam palavras
pro que sinto...
Por isso escrevo assim...
Mas não aprendi sozin...
Entre frases e caminhos
neste mundo de aprendiz...
Meus três pontinhos são iguais
Aos de Machado de Assis... 

*Publicado originalmente em comentário no Facebook em 17/04/2013


sexta-feira, 13 de abril de 2018

O Beijo que Ficou


         Ouviu dizer que era “dia do beijo” e sorriu! Pouco importava saber os motivos, a importância ou até mesmo qualquer crítica sobre o simples fato de terem inventado um dia para celebrar o beijo! Para ele, a simples menção da palavra “beijo” remetia a um beijo ideal. Mas não um ideal como o de Platão, inacessível, pertencente a uma instância de mundo superior. O seu “beijo ideal” tinha se passado aqui mesmo, no mundo dos sentidos.
         Era possível lembrar de cada ato daquele conjunto de instantes que formou o momento mais feliz de sua vida. Desde a respiração ofegante, ao encontro dos olhos que se perdiam entre o olhar a sua frente e seus lábios. Sim, cada movimento daquela cena era sagrado, e ele se lembrava de todos eles, em todos os seus detalhes...
         Tinha lido em algum lugar que o beijo movimenta 29 músculos! Era incapaz de identificar todos eles na memória, mas isso importa? Não era apenas o movimento dos músculos da boca que gerava aquela sensação apoteótica: era tudo! Todo o movimento do beijo que, não fosse por ela, ainda teria ele lá, preso eternamente naquele instante. Mas ela interrompeu o toque de lábios pra sorrir. E que sorriso era aquele? Era a imagem exuberante que o paralisou para não sentir tanto a transição do beijo para a ausência iminente do mesmo nos próximos instantes.
         Ela então segurou forte nas mãos dele, deu um selinho rápido, daqueles que não deixam oportunidade de prosseguir. Então ela falou:
— Adoro essa música! Vamos dançar???
         Música? Ele nem lembrava que havia música. Nem lembrava que havia um mundo para além deles dois. Foi então aos poucos reconstruindo o mundo ao seu redor. Lembrou-se que a viu passando em frente à sua casa. Ele estava no quintal recolhendo as folhas caídas das árvores no final da tarde, e lá estava ela. A menina metida do sobrado da rua de cima estava com ela. Parou ao me ver e disse:
— Meu irmão te entregou o convite da festa de hoje à noite, né?
         Ele ficou em silêncio, com a pá e vassoura em uma das mãos e o saco de lixo em outra. Não conseguia olhar pra metida! Ficou uns bons segundos preso nos olhos da moça que a acompanhava. Percebeu então que precisava dar uma resposta e começou gaguejando em pleno uso de vogal:
— É...É...É...
         Percebendo que o motivo do nervosismo era a estranha ao seu lado, a metida apressou-se em me interromper:
— Ah, desculpe! Esta é minha prima! Veio de longe pra nos visitar e vai ficar pra festa! Mas você não...
         Era mais que hora de dar uma resposta rápida. Ele já tinha começado a dar uma desculpa pro irmão dela pra não comparecer à festa. O povo daquele sobrado tem um salão anexo no andar de cima. Adoram dar festas em fins de semana com músicas que ativam o seu mau humor instantaneamente. E como o sobrado é quase colado com o muro dos fundos de sua casa, fica obrigado a conviver com aquele ruído alto e ruim, ou sair de casa. Mas agora era o momento de suportar qualquer canção popular universitária para ter a chance de mergulhar dentro daquele olhar que lhe fora lançado e, ali, dançar a noite toda com ela, ainda que não soubesse dançar.
— Opa! Seu irmão me entregou o convite! Eu disse a ele dos trabalhos da faculdade, que seria difícil de ir, mas... Veja só: já me adiantei! Certamente estarei lá hoje à noite!
— Ótimo! Vamos te esperar. Tchau!
         A moça forasteira acenou-lhe sem dizer palavra. Lembrava ainda de ouvir as duas rindo poucos passos à frente. Talvez fosse da sua reação patética. Talvez da posição maltrapilha, com instrumentos de limpeza nas mãos. Ou, gostaria de apostar nisso, um riso de gracejo, pois aquele olhar... Ah... Aquele olhar pareceu que lhe fora lançado com gosto!
         Lembrou também da noite, quando começou a escolher as roupas para se tornar uma novidade. Mas não podia ser muito extravagante, o que, no caso dele, seria usar um terno, única opção no guarda-roupa além das calças jeans e camisetas básicas ou de time de futebol. Não, nada de camisa de time! Decidiu usar a sua calça jeans mais nova e uma camisa polo que ganhou de sua mãe e ainda não tinha estreado. Fez a barba, ajeitou o cabelo, passou aquele desodorante de cheiro bom, mas evitou perfume. Ele detestava perfumes. Chegou cedo, ou melhor, exatamente no horário marcado, quando só haviam os anfitriões e aquela que seria alvo predileto e premeditado de todos os seus olhares naquela noite. Depois de cumprimentar aos donos da festa, finalmente pode beijá-la. No rosto, é claro! Então perguntou:
— De onde tu vens?
— Venho de uma terra encantada!
— Isso explica muita coisa!
— Explica o que, por exemplo?
— Explica o fato de o seu olhar e todo o conjunto da obra serem encantadores!
— Encantou-se comigo, é?
         E ela riu com a gargalhada mais bela que já tinha ouvido! Passaria uma vida ouvindo todas as músicas ruins do mundo só pelo privilégio de ter ouvido três segundos daquela gargalhada. Em meio ao início do seu arrebatamento daquele mundo todo, chegou um grupo grande de pessoas. Então a dona da minha festa particular me pediu licença e foi para perto dos donos reais da festa, afim de ser apresentada aos outros. Ele sentiu uma ponta de ciúmes ao vê-la simpática e sorridente para todos! Mas gargalhada como aquela que ouviu ela não deu a ninguém! Ou deu? Não... Ele teria notado se ela tivesse repetido o feito para outro privilegiado. Ela parecia mesmo um ser encantado. O vestido longo, cobrindo os pés, trazia a impressão de que flutuava no ar. Às vezes pousava ao lado da tia, e posava para fotos... Todos no salão pareciam encantados com a jovem forasteira. Com exceção de uma ou outra moça ressentida por não estar no lugar daquela protagonista inesperada, os outros se rendiam a ela. Quanto mais pessoas chegavam, mais o coração daquela musa parecia navegar por todo o salão.
         Foi neste ponto que nosso herói compreendeu que seria sorte demais ele, (logo ele...) contar com a atenção daquele ser encantado. Já tinha se resignado e, sentado em um canto, segurando sem beber uma taça de vinho espumante, contentava-se apenas olhá-la. Quando a maioria dos convidados começava a ficar ébria, a moça resolveu voltar para perto daquele que fora o primeiro convidado recebido. Ele esfregou os olhos quando a viu se aproximando. Seu coração quase lhe saiu pela boca quando ela veio pousar com seu vestido voador bem ao seu lado.
— Sei que não é muito usual, mas... Não temos muito tempo!
         Abruptamente ela saltou segurando as mãos dele. Pareceu eleva-lo acima das estrelas e, sem aviso prévio, começou a aproximar seu rosto do dele sem dizer palavra. Voltamos então ao início desta história. Toda essa lembrança da noite, do dia, dos olhares trocados, apontava para aquele momento mágico do beijo! Qual era mesmo o pedido dela? Ah, sim:
— Adoro essa música! Vamos dançar???
— Mas eu não sei dançar!
         Disse ele abrindo pela primeira vez os ouvidos para a música que estava rolando. Surpreendeu-se! Era um Soul de primeira, com uma pegada de baixo contagiante! Aquela música era a onda perfeita para embalar aquele momento. E ele começou a balançar devagar, sentindo a pulsação. Então ela disse:
— Se você não conseguir dançar comigo, tudo bem, eu danço pra você! Vamos!!! O tempo está acabando! Vou dançar contigo. Vou dançar pra você!
         Ela foi se afastando e balançando as mãos chamando-o pra dançar... Tudo isso beeeemmmm devagaaaarrrr... Ficou paralisado! Não sabia quantos demônios seguravam suas pernas. Ele a viu saindo do salão e descendo as escadas sem virar-se, sem deixar de chama-lo pra dança, como se tivesse flutuado acima dos degraus, sem medo de cair de costas. Quando finalmente conseguiu se mover, desceu desesperado as escadas. Ainda teve tempo de ver um carro saindo devagar da vaga na rua em frente ao sobrado. Os donos da casa estavam lá, mas ele não teve coragem de perguntar nada. Ainda estava inebriado pelos acontecimentos anteriores quando ouviu alguém dizer:
— Por isso ela só aceitou beber água? Tinha a intenção pegar a estrada dirigindo ainda hoje... Que faça boa viagem!
         Ela estava sã! Beijou-o sem nem um vestígio de auxílio do álcool! Mas se ela estava sóbria, totalmente consciente, por que foi embora assim? Por que disse ter pouco tempo? Por que foi embora enquanto dizia...

História baseada em música do compositor londrinense Tonho Costa: 

"Lembro de todo o movimento
Do beijo que ela me deixou.
Eu só queria uma dança
Dentro do olhar que ela lançou..."



Entre Beijos


Quantos últimos beijos estão acontecendo neste momento?
A vida boa é a que sucede entre o primeiro e o último beijo
Aos amargurados resta ditar regras contra os apaixonados,
Cabe aprisionar todos os beijos em canções ruins nas rádios.

Quantos primeiros beijos estão acontecendo neste momento,
Arrebatando um par de apaixonados deste mundo cruel e frio?
Aos apaixonados resta a resistência alheia às forças contrárias
Resta traduzir todos os poemas de amor no toque de seus lábios.

Como a sobrevivência ocorre entre o ascender e apagar do fogo
Que há milênios garante o melhor de alimentos e bebidas quentes
A vida continua a proliferar entre primeiros e últimos beijos!

Como a morte sempre chega na lenta incineração da vida no fogo
Haverão sempre moribundos a desviar o foco do melhor da vida:
Que é tudo o que se passa entre os primeiros e os últimos beijos